quarta-feira, 7 de abril de 2010

Carta desde El Salvador, Povo e Igreja pascais

Carta desde El Salvador, Povo e Igreja pascais (16/03 a 04/04/2010)

Cheguei a El Salvador em 16 de março, a tempo de participar do congresso teológico na UCA (Universidad Centroamericana), e das bonitas celebrações do 30º aniversário do martírio de Monseñor Romero, que impactam bastante o coração.
Permaneço aqui até 21 de junho, com meu espanhol algo "torto", mas aprendendo cada dia um pouquinho mais, sobretudo quando me encontro com as crianças, que são muito boas mestras.
Não vim sozinho, pois sei que trago no coração muita gente querida a mim, e a quem El Salvador e sua Igreja “romeriana” são muito queridos. Por isso me sinto impelido a compartilhar o que venho vivendo por aqui.
Passei a Semana Santa com o povo simples das comunidades do interior do país, no departamento de Chalatenango (carinhosamente, Chalate): paróquia San Bartolomé, de Arcatao (comunidades Los Pozos, Huizucar, el Bajío, Carasque, etc), onde trabalha o Pe. Miguelito, SJ que, em sua juventude, esteve muito próximo a Romero, e que há anos tem acompanhado o povo pobre do interior. Passei também por San José las Flores e diversos outros rincões, cantones e pueblos. O Tríduo Pascal o celebrei com o povo de outra paróquia, em Las Vueltas (muitas voltas, aliás, entre montanhas). Foi um desimenso presente de Deus!, a que devo sempre me lembrar de agradecer.
Esse sertão salvadorenho é uma região que foi muito castigada pela guerra e massacres (ao todo, no país, há registro de 227 massacres a civis, com cerca de 10 mil pessoas assassinadas). As comunidades eclesiais eram muito visadas, a ponto de terem por vezes que manter escondida a Bíblia. Num encontro de oração para catequistas alguém formulou uma prece por quem, há não muitos anos atrás, arriscava-se para anunciar a Palavra de Deus (“matava-se a catequistas pelo fato mesmo de ser catequistas”). Por proximidade e fidelidade a seu povo e solidariedade às lideranças das comunidades (delegados da Palavra, coordenadores/as, membros das equipes litúrgicas,...), morreram, igualmente, religiosas, padres, e o bispo (Romero manifestou que seria triste que, numa Igreja com tantos mártires, não ocorresse isso, pois seria um mau sinal de que a hierarquia e a vida consagrada estariam longe de seu povo e sem compromisso efetivo com ele). Em El Salvador resplandece (ao lado também de infelizes exceções) uma Igreja perseguida e martirial, que segue muito viva e dinâmica, e na qual também as gerações mais jovens, das filhas e filhos da guerra, guardam a memória desse testemunho dos mais velhos e dos caídos/as, e dão continuidade a seus passos, neste novo contexto pós guerra civil e de albores de novos tempos.
Próximas à fronteira, tais localidades são, quase que na totalidade, repovoações, porque essa gente se refugiara em Honduras (compartilhando a Mesa Grande, significativo nome dum acampamento), deixando a região praticamente desabitada. Foram retornando ao fim da guerra ou, ao menos, quando os massacres se tornaram menos intensos; ou mesmo em meio a fortes enfrentamentos do exército com a guerrilha, mas para ajudar ativamente no processo de libertação de seu povo e permanecer ao lado dos/as parentes e amigos/as que haviam ficado, e correr juntos/as o mesmo risco. Sua consciência não lhes permitia viver longe do perigo, para proteger sua própria vida, pois a existência individual estava subordinada à vida do seu povo e era entendida na perspectiva do serviço a ele. Houve sim quem se incorporasse à guerrilha, em equipes de apoio ou mesmo como combatentes. É muito temerário, porém, emitir um juízo sobre isso, ainda mais quando se olha a realidade de fora. Certo: por princípio, não devemos ceder a nenhuma violência (Romero dizia que matar é mais fácil; difícil é morrer para que outros/as tenham vida). Contudo, diante da violência institucionalizada (e estando aqui, entendi melhor o significado palpável dessa expressão), a alternativa extrema passou a consistir entre se deixar matar em massa, ou assumir alguma forma possível de resistência. Para muita gente, entrar na guerrilha não foi uma escolha ideológica, mas uma opção pela sobrevivência coletiva. Miremos bem: não um esforço de garantia individual, que tantos/as foram mortos/as, mas a entrega de sua vida para que seu povo tivesse um futuro. Isso não anula as reais contradições da luta armada, seu substrato ideológico, etc. Porém situa a questão noutro horizonte: o povo não quer violência, mas também não está disposto a ser vítima passiva ante a insensibilidade e crueldade de quem detém o poder e absurdos privilégios.
Mesmo já conhecendo um pouco a história salvadorenha, não imaginava o quão terrível e brutal tenha sido a repressão às organizações populares e à Igreja comprometida com os/as pobres. Em cada família há cicatrizes, em cada casa há uma poça de sangue, às vezes de grande volume (sangue de 4, 5, 6, ou mais pessoas da mesma família). Romero não se cansou de profeticamente denunciar a violenta e sistemática repressão principalmente às indefesas famílias campesinas: o poder econômico da oligarquia já não se contentava com seu braço político a governar unicamente a seu favor (Romero ouviu de um agricultor, e o citou certa vez: “em nosso país a lei é como uma cobra, que só pica a quem anda descalço”), mas recorria à força militar e aos grupos para-militares e aos esquadrões da morte (“Orden”, “Mano Blanca”,...) que sem piedade espalharam terror, tortura, violações e assassínios.
No dia 14/05/1980, por exemplo, ocorreu o massacre do rio Sumpul, quando, próximo à localidade de Las Aradas, não tão longe de Las Vueltas, cerca de 600 civis, famílias inteiras (homens, mulheres, jovenzinhos/as, crianças, abuelos e abuelitas) das guindas - população desplazada, levas de gente migrante, em longas filas de caminhantes sem comida nem água, intentando atravessar o rio e chegar a Honduras - foram assassinados numa operação conjunta dos dois países, com apoio do imperialismo ianque (oficiais do exército salvadorenho, incluindo o Atlacatl, seu batalhão de elite responsável também pela morte dos 6 jesuítas da UCA, da funcionária Elba Julia e de sua filha Celina, de 15 anos, em 16/11/1989, foram treinados na Escola das Américas, dos EUA). No Sumpul, os disparos partiram de cada lado da fronteira, de modo que quem escapava de ser metralhado, sucumbiu por afogamento. Ouvi, que me contaram, com comoção, que alguns sobreviventes, que conseguiram subir em árvores e se mantiveram escondidos da vista de seus algozes, e a tudo presenciaram, depois (em seguida a re-encontrarem sua gente e relatarem o massacre) só puderam se quedar transtornados, ensandecidos pela dor...
Também ouvia, em Arcatao, noite adentro, um homem e um outro homem que, perambulando cada qual pelas ruas e pela praça, gritava sozinho palavras ininteligíveis, seus traumas.
Na beira das estradas há profusão de cruzes, não de vítimas de acidentes, mas a indicar os lugares, documentados ou presumíveis, de mais vidas roubadas. Aqui e ali há singelos monumentos em homenagem aos assassinados/as: letreiros com nomes, e fotos ou desenhos.
Hoje qualquer pessoa de 18 anos de idade ou mais (os Acordos de Paz datam de 1992) é sempre um(a) sobrevivente.
E acaso isso tudo não muda radicalmente o que seja a trajetória duma pessoa, e a de um povo?
Não faltam também os mutilados/as: um homem sem braço, à porta de sua casa; outro semi-paralisado por uma bala alojada na cabeça. Ou, como na foto do modesto museu que se vai organizando junto ao Centro de Formação da paróquia de Arcatao, uma jovenzinha apoiando-se em muletas, sua perna decepada (não longe da foto estão expostas roupas e chinelinhos de criança semi-destruídos, resgatados dos lugares de massacres). Ou (ao passarmos por um dado lugar) a evocação da criança que, atraída por uma espécie de lebre, pôs-se inocentemente, naquelas imediações, a correr atrás do animalzinho, e foi feita em pedaços, vítima fatal da explosão duma mina terrestre...
Cartazes, calendários de parede e camisetas estampam inúmeros desses rostos e nomes que não se esquecem.
Na igreja de Arcatao, ao fim da Missa, na 4ª-f Santa, a Moça vem, de longe, pela primeira vez, e se fotografa ao lado da imagem do Pai (próxima ao presbitério, a parede do templo, dum lado e doutro, mesclada à via-crucis de Cristo Jesus, é só de rostos e nomes de gente caída na guerra, para que a memória se mantenha viva e a morte não se prolongue, não se repita; para que a violência passe, e as flores e sorrisos fiquem): “Papai morreu na guerra quando eu era nenê. Não cheguei a conhecê-lo” (por detrás da abstração da guerra há histórias reais, pessoas de carne e osso, minha história única e irrepetível, e como agora a sinto, e como agora preciso ir reconstruindo-a, reconciliando-me com ela).
Na praça de Las Flores, na praça de Las Vueltas estão expostos restos da guerra (bombas que foram jogadas dos aviões e que não explodiram, metralhadoras retorcidas, baionetas que - deseja-se - para sempre caladas). Dilacerantes testemunhos a céu aberto.
...Não vou me alongar. Estou tomando algumas notas, e penso redigir um relato, não longo mas mais detalhado, desses dias salvadorenhos, salvadores, salvantes - esse povo crucificado e Servo, acostumado ao sofrimento, que vai tirando o pecado do mundo, que nos vai impulsionando à conversão. E que, no entanto, sorri largo, como se não tivesse sido obrigado a provar tanto fel. Sorri, espantosamente alegre, esperançoso, sem rancor, pondo-se a caminho para adiante. Querendo Justiça, sim, sem se resignar às forças de morte e a uma falsa reconciliação que equivaleria à impunidade e à aprovação de iniqüidades ou conivência com crimes assim abomináveis. A gente, contudo, sorri, acolhe, e mesmo perdoa, respirando Fortaleza e Esperança. Sua fisionomia, no entanto, mostra-se precocemente envelhecida, e mães aparentam ser as avós.
Uma Mãe vem ao meu encontro e seu sorriso a ela se adianta. Saúda-me com espontânea cordialidade. Vendo pendurado um quadro em sua homenagem, pergunto-lhe: “e a senhora também se dedicou muito para o bem de sua gente?” Sua resposta impressiona: “o primeiro que dei foi meu esposo e seis filhos”. Em verdade, sete: uma filha, cinco filhos, e mais uma filhinha que morreu enferma por falta de condições de ir atrás de atendimento médico, em meio às intermináveis peleias e a impossibilitação de circular pelas estradas.
Após semana tão realmente santa, porque passada junto a esse santo povo de Deus, agora sigo meu tempo de estudos, residindo novamente em San Salvador, na comunidade São Alberto Hurtado, com meus companheiros jesuítas. Na UCA, dos mártires Ignacio Ellacuría e companheiros, estou acompanhando o curso monográfico de Miguel Cavada sobre As homilias de Romero (Cavada foi quem organizou a edição crítica das homilias, em seis volumes), e as aulas de Cristologia, com Jon Sobrino. Além disso, vou fazendo minhas leituras, enquanto vou também vivendo outras experiências e conhecendo outras facetas da história dessa terra pascal que tanto sofreu com a amarga guerra, os massacres, a grande tribulação na qual lavaram e alvejaram suas vestes no sangue do Cordeiro (cf. Ap 7,14), mas que segue ressuscitando com o Cristo e construindo a cada dia, com Fé e Esperança, sua Vida Nova, na onipresença de San Romero de América, testemunha maior: “Não abandonarei meu povo, mas correrei com ele todos os riscos que meu ministério me exige” (11/11/1979; Homilias, vol. 5, p. 530); “a palavra fica, e esse é o grande consolo de quem prega: minha voz desaparecerá mas minha palavra, que é Cristo, permanecerá nos corações de quem a tiver querido acolher” (17/12/1978; Homilias, vol. 4, p. 65). Romero da mais profunda espiritualidade comprometida!, homem de Deus e do seu povo, a quem tendo-o amado, amou até o fim, até o extremo de ofertar a própria vida (cf. Jo 13,1).
“Com Romero, Deus passou por El Salvador” (palavras de Ellacuría, repetidas com freqüência por Jon Sobrino). O Cristo Ressuscitado segue passando em nossas vidas, também pela memória viva de Romero, ressuscitado no povo salvadorenho, e na de tantas outras vítimas. Que saibamos vê-Lo e ouvi-Lo, e nos pôr com firmeza a caminho!...


Pe. Rogério Mosimann da Silva, SJ

(05 de abril de 2010, 2ª-f da Oitava da, mais do que nunca, PÁSCOA)

Luzes pela Vida

A Aids existe e continua sendo um desafio para todos.
No Brasil, cerca de 630 mil pessoas vivem com HIV,
544.846 desenvolveram a doença e
217.091 já morreram em consequência da Aids.
Somos todos vulneráveis, portanto co-responsáveis no controle deste vírus.
A Vigília pelos Mortos de Aids quer:
Chamar a atenção para a realidade da epidemia;
Sensibilizar para o compromisso de buscarmos respostas a este problema que atinge a todos;
Convocar para uma ação de amor e compaixão, especialmente junto a quem é mais vulnerável;
Defender os direitos humanos e a dignidade das pessoas.
A qualidade de vida passa pela garantia dos direitos.

Oração pela Vida!

Senhor, fonte da vida e da esperança.
Estamos diante de Ti como criaturas frágeis e necessitadas.
Tu que amas tudo o que existe,
acolhe-nos em teu coração.
Recebe os que faleceram com Aids.
Confiantes em tua promessa,
cremos que a morte não é o fim!
Torna-nos defensores da vida,
perseverantes na luta,
solidários no sofrimento.
Livra-nos da discriminação,
liberta-nos do preconceito.
Sejamos acolhedores e misericordiosos,
conforme Tua vontade. Amém.

terça-feira, 30 de março de 2010

Em Jesus, Deus se Abaixa para servir a humanidade

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(Ex 12,1-8.11-14; Sl 115/116; 1Cor 11,23-26; Jo 13,1-15)
Hoje nos reunimos para celebrar a Aliança nova e terna que Deus renova conosco, seu povo amado, filhas e filhos queridos, família na qual seu Filho se faz irmão. A mesa está pronta, a toalha está linda, as flores estão coloridas e o alimento é simples e saboroso. E há lugar para todos/as, inclusive para pecadores/as como nós. O próprio Jesus de Nazaré nos diz que preparou e desejou ardentemente celebrar esta ceia conosco (cf. Lc 22,15). E aqui a acorremos porque intuímos que não temos outra honra ou glória que esta de trazer em nossos sonhos, projetos, ações e relacionamentos as marcas da cruz de Cristo, do seu amor sem fronteiras. Aqui estamos para ouvir de novo as palavras do testamento do nosso irmão e filho de Deus, para provar mais uma vez como ele nos ama, para continuar o dinamismo da sua missão no mundo. Efetivamente, ele não baixa a cabeça diante de nenhum poder, mas se inclina diante do ser humano necessitado para servi-lo.
“Este dia será para vós uma festa memorável.”
Na mesa que reúne as pessoas que desejam ardentemente viver a fraternidade, fazemos memória, recordamos. Com o povo de Israel e todos os povos, trazemos de novo ao coração as inúmeras travessias já realizadas ou ainda em processo: travessias com avanços e retrocessos, quedas e recomeços, sonhos e traições; travessias marcadas por uma Presença que se mostra, ao mesmo tempo, como nuvem luminosa e como sombra acolhedora.
Esta celebração é também um memorial dos êxodos e travessias que somos convidados/as a empreender como indivíduos: travessias de um eu fechado em si mesmo para uma comunidade aberta e solidária; de uma mesa grande e vazia para uma mesa farta e partilhada; de projetos estreitos e ancorados no sucesso pessoal para utopias coletivas; da sedução indisfarçável que a riqueza exerce sobre nós ao despojamento livre e generoso em favor dos outros; de lutas empreendidas contando apenas conosco mesmos/as para alianças bem mais que estratégicas.
A ceia eucarística é a memória de Jesus e dos discípulos e discípulas que, tendo atrás as memoráveis experiências das refeições partilhadas com toda sorte de pecadores/as e à frente a ameaça dos poderes que não toleram mudanças, compartilham suor e sangue, vinho e pão, sonhos e esperanças. Memória de incompreensões, medos, distanciamentos e traições. Memória daquele que tendo nos amado, ama-nos até o fim e se oferece como perene alimento para a caminhada.
“Isto é meu corpo entregue por vós!”
A eucaristia é alimento para quem está a caminho. Celebramos esta ceia e aceitamos a aliança que Deus nos oferece ainda “na terra do Egito”. Faz escuro, mas cantamos para despertar a aurora que não demora. Celebramos esta refeição de comunhão prontos/as para realizar uma travessia urgente: com cintos que diminuem os embaraços; com sandálias que agilizam os passos; com cajados que nos sustentam nos vales escuros. “Quem comeu de pé a páscoa não tem lucros, nem tem medo”, poetiza o velho e lúcido Dom Casaldáliga.
Não um cordeiro, mas um corpo feito inteiramente dom. Corpo não é apenas uma carcaça, a metade exterior e mais desprezível da pessoa: é a totalidade concreta, é diferença e relação. Jesus Cristo oferece a concretude de sua vida como dom e partilha. É sua vida inteira – sonhos, ações, corpo e sangue – que ele nos dá sem reservas e sem impor condições. E o faz numa ceia ordinária, numa refeição marcada pelo afeto fraterno, num contexto de ameaça de morte, pedindo insistentemente que façamos o mesmo para manter viva sua memória. Ele nos dá um exemplo, para que nós façamos o mesmo.
A Eucaristia faz da Igreja uma comunidade aberta em dom àqueles/as que estão fora ou estão longe. O corpo de Cristo é a comunidade viva dos fiéis, o povo de Deus que ultrapassa as fronteiras eclesiásticas, o corpo dos pobres e marginalizados que ostentam suas chagas vivas. O corpo-Igreja é dado por nós, para que sejamos homens e mulheres emancipados, maiores, maduros e livres como Cristo. E isso significa encarnar a mesma atitude fundamental de amor e serviço vivida por Jesus Cristo, superando a tentação de anunciar Deus e servir ao dinheiro, de falar de amor e agir pelo temor.
“Tu vais lavar-me os pés?”
Jesus explicita sua oferta sem reservas no gesto de lavar os pés dos discípulos. Ele havia dito e repetido que viera para servir e não para ser servido, como Servo e não como Senhor, e demonstrara isso numa dedicação sem cansaço aos últimos. Depois de repartir pão e vinho, Jesus deixa a mesa e assume o serviço das mulheres e crianças, lavando os pés dos que estavam à mesa. É o próprio Deus que se inclina diante da humanidade e, de joelhos, lava nossos pés. E não o faz para demonstrar humildade, mas para desfazer as hierarquias e afirmar a absoluta igualdade de todos/as. Deus não se identifica com o soberano mas com o servo.
Entre os convivas estão Pedro e Judas. Pedro reage diante da lição de Jesus. Não lhe parece bem mudar as coisas assim tão radicalmente: para ele, senhores e superiores devem ser honrados; servos e inferiores devem ser desfrutados; esta é a ordem e nada deve ser mudado. Parece-lhe difícil aceitar que esta não é a ordem querida por Deus, que participar da Eucaristia implica em fazer-se memória viva da vida de Jesus Servo. Como custa à Igreja e a cada um/a de nós assimilar esta lição. Mas Jesus não ensaia uma cena teatral: ele é o Servo, e a missão que compartilha conosco é servir, na amizade e na solidariedade.
O evangelista não diz quem foi o primeiro e quem foi o último, e Jesus lava os pés também de Judas. Nossa tradição cultural propõe a prática de ‘malhar o Judas’, mas Jesus nos ensina a acolher também àqueles/as nos quais se condensa a resistência e o mistério da iniquidade. Não se trata de absolver os algozes e ignorar seus crimes, mas de ser capaz de ver mesmo nas pessoas contraditórias, resistentes e errantes um ser humano. E mais: precisamos acolher a possibilidade de resitência, fechamento e traição que está em de nós mesmos/as.
A lição é difícil e nada óbvia. É por isso que depois de cear e de lavar os pés dos discípulos, Jesus interroga os discípulos: “Vocês compreenderam o que eu acabei de fazer?” E para não deixar dúvidas, explica: “Eu lhes dei um exemplo... E vocês serão felizes se o puserem em prática...” Deus coloca tudo em suas mãos, e este tudo se mostra nas mãos que lavam os pés, nas mãos que serão pregadas na cruz, no serviço cordial e fraterno, na recusa das hierarquizações.
“Erguerei o cálice da salvação e invocarei o nome do Senhor...”
O mandamento final é que passemos da memória verbal e ritual à realização histórica e vivencial: “Fazei isso em memória de mim”; “Se puserdes em prática, sereis felizes.” A Eucaristia é memorial da solidariedade de Jesus realizada efetivamente nos caminhos da Galiléia e no martírio da cruz. Sem isso a santa ceia será um rito vazio. Precisamos dar conteúdo e concretude à Eucaristia no dom cotidiano pelos outros, no serviço despojado a todos/as, mesmo àqueles/as que aparentemente não o merecem, mas carecem.
Jesus de Nazaré nos convida à Ceia que preparou com cuidado sincero e amigo e nos acolhe à sua mesa. Participemos dignamente desta ceia-aliança para alcançarmos um amor maduro e concreto. Sentados/as, como pessoas reconhecidas e dignas, ou em pé, como militantes prontos/as para a luta, descubramos que a vida de cada pessoa humana é muito preciosa aos olhos de Deus. Por isso, seguros/as do seu amor, tomemos o avental e lavemos os pés uns dos outros, no interior do templo e nos caminhos da história.
Não caiamos na tentação – tão forte e tão presente! – de deixar a bacia e o avental bem guardados no interior do templo para a próxima encenação. O gesto do lava-pés, complementar ao gesto da mesa e da doação total na cruz, é uma lição para ser praticada também no seio das nossas famílias, grupos, associações e no coração de uma sociedade habituada a bajular os que detém o poder e pisar violentamente sobre os empobrecidos. Jesus não nos pede para repetir um rito, mas para assimilar uma ética. Alcançamos a verdadeira liberdade quando renunciamos às hierarquias e honras vazias, vencemos a envolvente sedução do dinheiro e somos capazes de servir efetivamente.
Pe. Itacir Brassiani msf

sábado, 27 de março de 2010

Semana Santa

com o Domingo de Ramos os cristãos iniciam uma semana especial, diferente. É a Semana Santa. Neste Domingo a Igreja vive dois mistérios da vida de Jesus: o primeiro é representado pela procissão de ramos e relembra a entrada de Jesus em Jerusalém; o outro é a sua Paixão, que vai continuar sendo celebrada durante toda a Semana Santa.
Os acontecimentos vividos nesta semana santa não devem ser vistos apenas como históricos, mas com o sentido salvador que eles trazem. Por isso mesmo, a narração da paixão e morte de Jesus não basta ser lida ou escutada; deve ser rezada, meditada e vivida.

Para isso, cabe a cada um de nós santificar esta semana. Ela só será santa se nossa vida for santa.

Por isso, nesta semana, perdoemos se estamos com raiva de alguém; busquemos o perdão se ofendemos alguém; rezemos mais; sejamos solidário; valorizemos os gestos de amor na família, com nossos vizinhos e colegas de trabalho. Participemos das celebrações. Multipliquemos as atitudes de amor e de fraternidade a exemplo de Jesus. Acreditemos num mundo novo que só o amor é capaz de construir.

Ótimo início de Semana Santa.
Pe. Clair Favreto

terça-feira, 16 de março de 2010

PATER NOSTER: a urdidura da Fraternidade


Um só sopro de vida,
uma só urdidura e simetria,
um só ritmo e arfar,
um só fluxo de chama e de paixão,
uma só e santíssima alegria

a todos une e a todos perfilha,
natos do mesmo pai,
da mesma origem,
espelhos da mesma face,
como se gêmeos foram,

herdeiros e sinônimos de um nome –
e santo, santo, santo é esse nome –
que soa no universo e, eco do Verbo,
em cada um de nós é repetido,
como um coro de vozes à distância.

Desvendados os olhos da cegueira
que nos aflige – se Vos descobrimos,
rutilante de luz, em cada vida,
em cada olhar – rodeados estaremos
pelo luar de Vossa Formosura.

Serão então, franqueados os umbrais –
o advento do reino – do Teu reino –
e nele viveremos Tua paz!

Se tudo e todos nós somos Vós – mesmo,
imersos num só sangue, num só ciclo,
num só pulsar do mesmo coração,
no pastoreio de uma só vontade –
que seja feita essa Vossa ordenança.

assim na terra e em nós como nos céus
e que exultemos, então, no arrebato
da transcendência que unge o firmamento.
e ensimesmados nessa santidade
que a tudo banha e a todos exalta.

Roguemos possam todos florescer
e para tanto tenham nosso amparo
e o pão para seu corpo e sua alma
por nós lhe seja dado cada dia
lhes permitindo ser.

Oh ! que funda amargura nos consome,
ao se abrirem por fim os nossos olhos
e vermos que negamos a existência –
em espírito e em carne e identidade,
magnífica e diversa – a tantos seres.

Que dívida nos prende a todos eles,
nossos calados, pacientes amigos,
tão doadores, a quem tanto devemos!

A nossa ofensa seja perdoada,
irmãs e irmãos, pobres e humilhados
ao passo em que, por nós, for apagado
a marca vil de nosso desamor
e em Nós a Santa Face restauremos.

Do mesmo jeito, com que perdoamos,
tão amorosamente ao filho amado
e alegres acolhemos
a toda mansa ovelha desgarrada
que de nós se afastou e ao lar retorne,

que aqueles todos a quem magoamos
possam nos devolver à condição
de Vossa terna e humana semelhança
e em nós – até em nós! –
Vos reconheçam.

E o nosso andar avance jubiloso,
livre das incertezas e desvios
de quem vacila e olha para trás
e a sarça ardente fulja e nos afaste,
da tentação da fuga e da tristeza.

E ante nós resplandeça a Tua glória
e Tu estejas em nós – e nós em Ti -
livres de todo o mal,
Amén!

Escrito por Judith Cortesão em 16 de agosto de 1996,
para seu amigo Lauro Barcellos.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Encontro de Espiritualidade da Vida Religiosa Inserida e Solidaria

CONFERÊNCIA DOS RELIGIOSOS DO BRASIL
REGIONAL DE PORTO ALEGRE/RS
Trav. Francisco de Leonardo Truda, 98 – 2º andar – S /23-25
90010-050 – PORTO ALEGRE/RS
Telefone: (51) 3221-0050/0277

Fax: (0xx51) 3212-0108



Porto Alegre, 10 de março de 2010.


Circular nº 05

Assunto: Encontro de Espiritualidade da Vida Religiosa Inserida e Solidária



Estimadas Irmãs e estimados Irmãos,

No Seminário Estadual da Vida Religiosa Inserida do RS, em agosto 2009, sentimos a necessidade de retomar a radicalidade do seguimento de Jesus de quem está e de quem pretende estar ao lado/junto dos empobrecidos. Não se trata de adquirir novas teorias ou aprender novas metodologias de trabalho; queremos “reavivar a chama desta opção” – pessoal e comunitariamente – na partilha, reflexão e oração, dando continuidade ao processo de revitalização e ressignificação da Vida Religiosa Inserida. Deste modo, CONVIDAMOS você para o ENCONTRO de ESPIRITUALIDADE da VIDA RELIGIOSA INSERIDA e SOLIDÁRIA.

Objetivo: Resgatar e aprofundar os fundamentos da espiritualidade da VRI.

Tema: “Seguimento de Jesus na opção pelos pobres”.

Assessor: Frei Wilson Dallagnol, OFMcap.

Data: 15 a 18/04/10
Início: dia 15, às 19 horas, com o jantar.


Término: dia 18, às 12 horas, com o almoço.

Local: Casa de Oração São João da Cruz (Padres Carmelitas)
Av. Oscar Pereira, 5199 – Bairro Cascata – Porto Alegre – RS
Fone: (51) 3318 5061

Como chegar ao local: do Centro de Porto Alegre, na Av. Borges de Medeiros: Ônibus – Embratel, Renascença, Belém Velho ou Lotação Glória. Descer na parada depois do Hospital Divina Providência. A parada fica bem na entrada da Casa.

Hospedagem:
Diária no valor de R$50,00 (a ser paga no local do Encontro), totalizando R$150,00 o Encontro todo.
Observações:
· É necessário cada participante levar roupa de cama e banho.
· Se alguém tiver dieta especial, favor levar o material; a Casa disponibiliza espaço para prepará-la, pois o Serviço de preparo da alimentação é terceirizado.
· Assuntos relacionados ao pagamento da Hospedagem são tratados diretamente com o pessoal da Casa do Encontro.

Inscrições:
Ficha preenchida: enviar pelo e-mail
secrepoa@terra.com.br (com pedido de confirmação do recebimento), pelo fax (51)3212-0108 ou entregar diretamente na Sede das CRB, até 30/03/10.

Taxa: R$ 20,00 (vinte reais), a ser paga:
- com cheque cruzado, em nome da Conferência dos Religiosos do Brasil/RS, enviado por correio,
- diretamente na Sede da CRB
- ou no local e dias do Encontro.

Observações:
· Mesmo que o pagamento da Taxa seja feito na data do Encontro, a Ficha de Inscrição deve estar na CRB até 30/03.
· Em caso de alguma dúvida ou dificuldade quanto à Ficha de Inscrição e/ou ao pagamento da Taxa, entrar em contato com a assessoria da CRB pelo e-mail
assescrb@terra.com.br ou pelo telefone (51) 3221 0050.

É bom que cada participante leve algum símbolo da sua Inserção para colaborar na ornamentação do ambiente e montagem do cenário do Encontro.

É importante que, desde agora, todos/as lembrem do nosso Seminário Estadual da VRI, que acontecerá do dia 06 (às 19 horas) ao dia 08 (às 12 horas) de agosto de 2010, na Casa Marista da Juventude - CAJU - P. Alegre. Maiores informações serão dadas posteriormente.


Agradecemos a todos/as pelo envolvimento na programação da CRB e, desde já, damos as boas-vindas aos/às participantes do Encontro.
Estaremos juntos/as, “com os olhos fixos em Jesus, que vai à frente da nossa fé e a plenifica” (cf. Hb 12,1-3), mas também com os olhos voltados para a realidade em que vivemos, para nela nos inserirmos com coração solidário.
Que Deus nos acompanhe com seus dons e luzes para que sejamos felizes na Vida Religiosa e fiéis na Inserção Solidária.

Saudações, abraços e votos de Bem.

Pe. João Quirino Weber, SJ
Presidente da CRB/RS

Ir. Clarice Teresinha Heck, IDP

Coordenadora do Grupo de Reflexão VRI

terça-feira, 9 de março de 2010

Contágio do HIV de mãe para filho deve acabar

O Fundo Mundial para a Luta contra a Aids, a Malária e a Tuberculose calcula que até 2015 será possível erradicar a transmissão vertical – de mãe para filho – do vírus HIV.
A projeção é consequência do aumento dos programas financiados por órgãos internacionais em países subdesenvolvidos, especialmente no continente africano.
No último ano, por exemplo, o orçamento da África do Sul destinado ao tratamento da aids cresceu 33% e, entre 2007 e 2008, o número de pessoas que recebem os antirretrovirais (remédios que impedem a multiplicação do vírus) aumentou 53%, segundo a Unaids, a agência da ONU para o combate à aids.
45% das grávidas recebem antirretrovirais.
No Brasil, a política de profilaxia da transmissão vertical, que inclui dar antirretrovirais para gestante e bebê, foi implantada em 1996. Com o tratamento, a chance de contaminação, que era de 25%, hoje é de 1% ou menos.
Segundo dados apresentados pela Unaids, há 370 mil crianças no mundo com HIV, sendo que a maioria delas foi infectada por transmissão vertical. No entanto, esse número tem diminuído desde 2001.De acordo com a entidade, hoje 45% das mulheres grávidas HIV positivas de países subdesenvolvidos e em desenvolvimento recebem os antirretrovirais. Ao todo, estima-se que 2,5 milhões dos 4 milhões de pessoas infectadas com HIV em todo o mundo façam tratamento com esses medicamentos.