quarta-feira, 27 de julho de 2011

QUE EM TODA AS MESAS DE POBRE HAJA FESTA E PÃO!

Há uma lei que entre nós é mais aplicada que a soma de todas as outras. É um preceito que não está escrito na Constituição nem na Bíblia, mas é ensinado em lições que vão do berço à sepultura. Esta lei diz, com algumas variações, que cada um deve viver pra si e só Deus se ocupa de todos. Um complemento mais violento afirma que quem pode mais sempre chora menos. Não é difícil perceber que este princípio vai sendo assimilado tranquilamente na arena política, no sistema econômico, na área cultural e até no âmbito da religião. Deus acaba sendo uma espécie de avalista ou financiador da nossa prosperidade social e econômica. Mas isso se opõe frontalmente ao seguimento de Jesus Cristo!

“Jesus partiu e foi de barca para um lugar afastado...”
Depois de provocar escândalo na sua terra e de saber da prisão e do subsequente martírio de João Batista, Jesus parte para uma região deserta e afastada. Resolutamente, toma distância dos lugares onde o poder mostra sua ferocidade. Ele se recusa a entrar no jogo de cartas marcadas e desposa a periferia. Jesus sente necessidade de respirar outros ares e busca inspiração em utopias mais divinamente enraizadas e mais humanamente concretizadas. Assim o fará durante toda sua curta vida.
Sabendo disso, as multidões cansadas e abatidas deixam as cidades e o seguem à pé. Intuem que é da periferia que pode nascer a novidade. Sabem que os centros de poder são como uma figueira estéril, ou pior, estão pavimentados com o trabalho dos pobres e pintadas com o sangue dos inocentes. Saindo da barca, Jesus vê a multidão e, movido pela compaixão, cura e emancipa muitos pessoas doentes que, poe causa disso, eram dependentes e marginalizadas.
A compaixão não costuma germinar no frio chão dos palácios. Sua força recriadora parece ser filha da fraqueza, e os palácios se sustentam sobre o poder, a prepotência e o medo. Quando as Igrejas aprenderão e levarão a sério esta verdade? O caminho da vida abundante para todos raramente passa pelos palácios. Para ver o povo e resgatar a compaixão ativa e redentora é preciso migrar para as periferias, sair do conforto e da segurança da própria barca, mesmo que seja “a barca de Pedro”...

“Despede as multidões...”
No fim da longa jornada, no entardecer das possibilidades de ajuda, os discípulos percebem a fome do povo e apelam para velhas e inócuas estratégias. Eles não conseguem ver solução para o drama do povo a não ser dentro da lógica do império. Sem um plano alternativo, pedem que Jesus disperse a multidão e cada um supra suas próprias necessidades. Entregam os famintos às frias leis do mercado. Nada mais adequado ao princípio que diz “cada um pra si e Deus por todos”.
A resposta de Jesus é direta e abate mortalmente tanto o espiritualismo escapista como o elitismo corrosivo dos discípulos. “Eles não precisam ir embora. Vocês é que têm de lhes dar de comer.” Longe de Jesus uma Igreja feita apenas de palavras e de ritos religiosos. Longe dele uma comunidade que se compraz em lavar as mãos diante das tragédias que se abatam sobre o povo. Basta de instituições que entregam seus membros à implacável lógica dos impérios!
Os discípulos reagem rapidamente e, tentando disfarçar o egoísmo elitista de quem pensa apenas nos seus direitos e privilégios, sublinham os limites dos recursos disponíveis frente a tão grande demanda. O que representariam cinco pães e dois peixes para uma multidão de dez mil famintos? “Tragam isso aqui”, determina o Mestre. “O pouco com Deus é muito; o muito sem Deus é nada”, ensina a sabedoria popular. O Reino dos céus é a universalização do acesso ao bem viver, a uma vida realmente boa.


“Só temos cinco pães e dois peixes...”
De repente o mundo parece ter acordado para a escassez de alimentos e a ONU convocou e realizou atravès da FAO (em 2008) uma conferência urgente para discutir a questão e traçar soluções. Mas os países do norte rico se recusam a tirar a venda dos olhos e reconhecer as verdadeiras causas da emergência. São eles mesmos que, por mecanismos diversos e perversos travestidos de leis e acordos, subtraem da mesa do povo dos países pobres o alimento por eles mesmo produzido.
É verdade que nos últimos 40 anos a população da humanidade duplicou. Mas a produção de alimentos triplicou!... E se a fome vem crescendo, onde foi parar o excedente? Soa como cínica, para não dizer diabólica, a proposta de resolver a fome dos pobres com a aprovação dos transgênicos. O resultado não seria o acesso aos alimentos, mas a subordinação da produção alimentar à padronização e às leis do mercado, o que impediria ou destruiria a soberania e a segurança alimentar dos povos.
É preciso denunciar, como o fez com coragem a Santa Sé, os pífios resultados e as inócuas propostas da referida conferência. Sem romper e reverter a lógica do lucro e do controle dos alimentos por algumas poucas empresas multinacionais não há solução viável para a fome no mundo. E é preciso reverter prioridades! Em 2007 o mundo gastou em armamento 1,34 bilhões de dólares ($ 202,00/habitante), 190 vezes o montante pedido pela FAO para combater a fome no mundo!

“Jesus mandou que as multidões se sentassem na grama...”
A saída não é nem cada um pra si, nem considerar povo faminto um simples objeto de caridade. Do ponto de vista do Evangelho, povo é soberano e as autoridades estão a seu serviço. E não se trata de povos nacionais mas de um único povo, pois para os cristãos as nações modernas são realidades fictícias e, às vezes, violentas, cujos confins foram traçados com lanças e baionetas. Não é cristão um amor que se preocupa apenas com a vida dos conacionais.
A solução para esta crise sistêmica não está ao alcance de um país ou de uma Igreja particular. A ordem “dêem vocês mesmos de comer” começa com a adoção de um consumo moderado pelos povos ricos e com a erradicação da exploração comercial dos países ricos sobre os pobres. Eles não precisam dar de comer: basta que não expropriem dos países pobres aquilo que lhes pertence por direito e não lhes imponham receitas econômicas mortíferas e padrões de consumo insustentáveis.
Eis aqui uma missão irrenunciável das Igrejas cristãs e de cada discípula/o de Jesus: estabelecer e defender a soberania alimentar dos povos; exigir dos organismos multilaterais medidas concretas que possibilitem a toda a humanidade comer com dignidade, até à saciedade. Essa não é de modo algum uma tarefa estranha à fé. Que ninguém seja surpreendido pela declaração: “Afastem-se de mim, malditos, porque eu estava com fome e vocês não me deram de comer...”


“E ainda recolheram doze cestos...”
O profeta Isaías, com uma mensagem que muitos hoje chamariam de romântica e irresponsável, conclama todas as pessoas que têm sede e fome e não têm dinheiro a comer e beber sem pagar. E olha que não se trata de apenas pão e água: o convite se estende ao leite e ao vinho! Haverá alimento suficiente se a humanidade entender que o caminho é a aliança de povos livres e não a dominação do mais forte, e se compreender que viver bem não é ter ou consumir muito, mas limitar as necessidades.
O alimento suficiente para saciar os que têm fome – e para encher muitos cestos para os que ainda virão – aparece quando Jesus assume o protagonismo e os discípulos se associam à sua ação. Se ele deixasse a solução às leis do mercado teríamos assistido à catástrofe de um povo, ao cinismo da religião e ao enriquecimento dos astutos. Valeu a chamada dos discípulos à prática daquilo que haviam escutado com admiração no sermão da montanha e nas parábolas do Reino...
O Espírito nos conduz do pão eucarístico ao pão para os famintos; da mesa da comunhão com Jesus Cristo à aliança com os oprimidos; do pão recebido à vida doada. Nada poderá nos separar do amor de Cristo e impedir que colaboremos com sua missão de devolver a dingidade aos homens e mulheres. Se Deus abre a mão e sacia o desejo de todo ser vivo, quem somos nós para fechar egoísticamente as mãos ou mantê-las sempre unidas em oração, como cínica desculpa para fugir da ação transformadora?
Deus, pai justo e mãe compassiva, tu queres que ninguém fique fora da festa da vida, e que nossa felicidade não esteja no aumento de propriedades mas na redução das necessidades: suscita e sustenta em nós a mesma compaixão que moveu Jesus na cura dos doentes, na acolhida dos marginalizados, na libertação dos oprimidos e no socorro aos famintos. Ensina às nossas comunidades a responsabilidade de ensaiar formas de vida mais sóbrias e solidárias. Assim seja!
Pe. Itacir Brassiani msf

sexta-feira, 22 de julho de 2011

ONDE ETÁ NOSSO TESOURO TAMBÉM ESTÁ NOSSO CORAÇÃO

Quase todos/as já fizemos a experiência de risco. Dando por descontado que viver é em si mesmo um perigo, sabemos o risco de iniciar um curso superior, de investir numa atividade nova, de apostar todas as cartas num determinado relacionamento afetivo. Quanto mais precioso nos parece o objeto, maior é a disposição para o sacrifício e menores são ponderações e receios. Para Jesus de Nazaré, a alegria contagiante de um ser humano excluído que recupera a cidadania representa um tesouro precioso e impagável, diante do qual tudo o resto parece lixo. Realizar a vontade do Pai e proporcionar vida abundante a todas as criaturas é seu alimento e seu tesouro. Qual é o bem supremo pelo qual estaríamos dispostas/os a hipotecar tudo, inclusive o nosso sossego e a própria vida?

“Ensina-me ouvir para que eu possa governar...”
A escuta atenta, a compreensão profunda e a resposta engajada à Palavra de Deus é a base da sabedoria cristã. Sentindo-se limitado e incapaz de liderar seu povo, o contraditório rei Salomão pede a Deus que o ensine a ouvir, a fim de que aprenda a distinguir o bem do mal e possa governar seu povo com justiça. Ouvir os outros e ouvir a si mesmo/a com profundidade são atitudes que vão de mãos dadas, são os dois lados de uma mesma atitude.
Quem não experimenta dificuldades de orientar a própria vida e não se interroga sobre o rumo que deve tomar? A escuta responsável da Palavra de Deus é uma ajuda importante para bem conduzir tanto a vida pessoal como uma comunidade cristã. Trata-se, é claro, de uma Palavra que não está presa ao livro, mas que ressoa na vida e nos sinais dos tempos. E esta escuta não conduz de modo nehum à passividade: as pessoas que sabem escutar são também as mais capazes de iniciativa.

“O Reino do céu é como um tesouro escondido no campo...”
A Evangelho vem nos falando do mistério do Reino de Deus. Ele se parece com um semeador que, mesmo sabendo que parte da semente se perderá, não deixa de semear. É comparável também um plantador que, apesar de ter usado boa semente, é surpreendido pelo o capim que cresce junto com o trigo. É semelhante também à semente de mostarda: apesar de sua pequenez, está na origem de um apreciável arbusto. Seu dinamismo é comparável enfim ao fermento que desaparece na farinha.
Jesus nos apresenta hoje como modelo inspirador um trabalhador rural que encontra um precioso tesouro no campo do seu patrão. Ao encontrar o tesouro, o sujeito é tomado pela surpresa, pois não o procurava. Então ele o mantém escondido e, sem dizer nada a ninguém e cheio de alegria, se desfaz de tudo o que tem e compra o campo onde se escondia o tesouro. Para um simples empregado diarista, este é um negócio arriscado, e só se justifica pelo valor que o tesouro tem ao seus olhos.

“O Reino dos céus é como um negociante que procura pérolas...”
Um segundo personagem que Jesus nos apresenta como modelo é um comerciante de pérolas preciosas. Este sim está empenhado na procura de uma pérola de grande valor e, quando a encontra, vende todos os seus bens e compra tal pérola. Este parece um negócio um pouco mais seguro, mas é comparável ao anterior no que diz respeito à necessidade de vender tudo para realizá-lo. Em ambos os casos, a experiência de encontrar algo precioso desestabiliza e chama a arriscar.
Eis o desafio para os discípulos e discípulas de Jesus: tendo descoberto a preciosidade do Reino de Deus – o valor irredutível e impagável da liberdade e da vida digna de cada pessoa em sua singularidade, o horizonte deslumbrante de um mundo de irmãos e irmãs de fato – , hipotecar ou subordinar tudo o mais – reputação, carreira, bem-estar individual e até família e religião – em função desse bem maior. Deus não tem tempo para tratar de pequenos negócios conosco. É tudo ou nada. E já!

“O Reino do céu é como uma rede lançada ao mar...”
Nosso batismo pressupõe esta opção de risco. Parece que poucas prssoas têm clara consciência disso, pois se não, como explicar o descompromisso com que muitos o celebram? Dá vontade de aumentar as exigências de preparação ou até interditar o batismo às pessoas que não acordam para o compromisso que ele implica. Mas o próprio Jesus ensina que o Reino de Deus é também semelhante a uma rede lançada ao mar, que recolhe peixes bons e peixes de qualidade questionável...
Como agentes da evangelização, precisamos prestar atenção à sabedoria dos pescadores. Primeiro, eles costumam se encantar mais com o mar que com as redes. Depois, sabem que não é sensato esperar que a rede recolha apenas peixes bons e apropriados para o consumo e o comércio; ela apanha peixes de todo tipo. O trabalho árduo e criterioso de separar peixes bons e peixes ruins não pode ser feito durante a pesca e em alto mar, mas vem depois.


“Quando a rede está cheia...”
Mas não tiremos conclusões apressadas e superficiais. Estre trabalho judicial não é de nossa responsabilidade, nem mesmo das nossas Igrejas. Antes de sermos pescadores somos peixes, e ninguém pode estar segura/o de sua própria qualidade. Deixemos ao fim dos tempos e aos anjos de Deus esta difícil tarefa de separar. Da nossa parte, avaliemos permanentemente a profundidade e a concretude prática da nossa adesão ao tesouro do Reino de Deus e continuemos a semeadura e a fermentação.
Quem poderá avaliar e saldar o mal que faz uma Igreja que prega um Deus que se recusa sentar-se à mesa com as/os pecadoras/es e prefere o distanciamento frio e nem sempre imparcial do juiz? O mal é ainda maior quando a própria instituição eclesial, na pessoa daqueles que deveriam ser pastores, age como poder judiciário rigoroso e implacável. As nuvens tenebrosas da inquisição se apresentavam de toga, ostentavam cruzes e participavam dos harmoniosos coros de canto gregoriano...
Mais uma vez, não estou propondo a passividade e a inércia diante das vítimas dos poderes e relações injustas. Deixar a Deus o julgamento final não significa furtar-se ao imperativo de discernir evangelicamente os fatos e de dar voz ao grito profético. Enquanto caminhamos na história, é o corpo agredido ou desnutrido das vítimas que exerce o papel de julgar todas os projetos, instituições e poderes. No próprio corpo dos oprimidos está inscrita a sentença daquelas/es que os agridem.


“Como um pai de família que tira do seu baú coisas novas e velhas...”
Finalmente, não façamos deduções apressadas. As parábolas de Jesus não sustentam teses dualistas. Bem e mal não são dois princípios metafísicos ou substâncias equivalentes e em eterno confronto. Jesus não fala do mal enquanto substância, mas de pessoas que agem mal, ou seja: pessoas que se opõem à lógica do Reino de Deus. Em todos os casos, a última palavra é do amor de Deus e da justiça do Reino. Os peixes imprestáveis são jogados no lixo da história.
Jesus termina esta bela e exigente seção das parábolas do Reino perguntando-nos se compreendemos o que acaba de nos ensinar. A resposta afirmativa e voluntariosa dos discípulos não convence, como demonstrarão posteriormente os acontecimentos. O próprio fato de que tenha explicado as parábolas nesta meditação não me garante que as tenha compreendido existencialmente, que seu ensino esteja configurando realmente a minhas ações, relações e opções.
Jesus Cristo se compara a um doutor da lei que entrou na escola do Reino do céu: ele sabe vasculhar o baú da história e tirar dele coisas novas e velhas. E convida os discípulos e discípulas a fazerem o mesmo. Quem descobrir o tesouro do Reino e vendeu tudo para ficar com ele não pode se contentar com “aquela velha opinião formada sobre tudo”, com as “antigas lições, de morrer pela pátria e viver sem razões”. Repetir velhas verdades e princípios genéricos é muito pouco. E bastante perigoso.


“A minha porção é guardar tuas palavras...”
Deus Pai e Mãe, amante das criaturas e condutor da história: teu projeto de comunhão solidária de todas as criaturas é o presente mais precioso e a herança mais comprometedora que poderias nos entregar. Foram tantos os homens e mulheres que, no decorrer da história, venderam ou perderam tudo para ficar com este tesouro. Ezequiel Ramin (assassinado aos 24.07.1985) foi um deles. Dá-nos a alegre ousadia de investir tudo o que somos e temos neste sonho de igualdade e comunhão, de diversidade e libertação. Ajuda-nos a considerá-lo mais precioso que o ouro, mais delicioso que o mel, mais orientador que qualquer versão de GPS. Assim seja!
Pe. Itacir Brassiani msf

segunda-feira, 11 de julho de 2011

domingo, 10 de julho de 2011

3º Encontro Nacional de Irmãos Capuchinhos



De 03 a 08 de Julho de 2011 estiveram reunidos em Porto Seguro - Bahia, cerca de 40 frades vindos das várias províncias do Brasil, no 3º encontro nacional de irmãos leigos capuchinhos.



O encontro teve como tema “O perfil e a mística do irmão leigo na ordem capuchinha”. Ajudaram na reflexão frei Edson Matias da província do Brasil Central e o irmão Cristiano, FFDM. O encontro contou ainda com a presença dos definidores gerais frei José Gislon, e frei Mark Schenk.

Também esteve presente o presidente da CCB e provincial de São Paulo frei Airton Grigoleto. Os dias do encontro proporcionaram, além das reflexões momentos de reencontro e vivência fraterna.Perfil e Mística do Irmão Leigo na Ordem Capuchinha.

Na Reflexão surgiram elementos


Os irmãos leigos são cerca de 20% na Ordem, variando em cerca de 11% em 1980 e cerca de 30% em 1969. Citou a Província da Tanzânia que foi praticamente composta por irmãos leigos décadas atrás, porque os bispos lá não permitiam capuchinhos presbíteros. Com a abertura para a ordenação presbiteral dos frades, diminuiu fortemente o número de irmãos leigos. Atualmente, há maior número de irmãos leigos na Europa, Estados Unidos e América Latina. Em contrapartida, na África e Ásia o número é baixo, sendo estes com a presença do cristianismo e da Ordem ainda muito recentes.

Quanto à formação, a proposta é ser igual para todos. Contudo, por vezes, há desigualdades na formação para frades que querem ser presbíteros e os que querem ser irmãos leigos. É comum os provinciais exporem não se saber qual formação dar aos irmãos leigos, principalmente no Pós-Noviciado. Mas o problema é que não estão sabendo qual formação dar a todos os formandos, reduzindo o Pós-Noviciado ao estudo acadêmico. E dizem se um frade quiser ser um marceneiro isso não é formação, relata o definidor. Citou um exemplo de discriminação, favorecendo à formação dos frades que querem o presbiterato, mesmo que isso não aconteça abertamente, na prática acontece.

No tocante à Pastoral Vocacional, há Província que exige o vocacionado ter curso superior para seu ingresso nela. Isso não é compatível com as orientações da Ordem. Lembrando que muitos frades populares não tinham grande intelectualidade, mas possuíam grande capacidade de relacionamento humano.

A maioria dos irmãos leigos, segundo o definidor, se mostra contente com o trabalho que fazem. As oportunidades de trabalho hoje são muito variadas e abertas. Mas ele diz encontrar muitas lamentações de irmãos diante da centralização em Paróquias. Os irmãos, por vezes, ficam soltos nos trabalhos das Paróquias. Por um lado, pode significar certa liberdade, mas, por outro, mostra falta de valorização do mesmo. Disse ser importante o provincial valorizar e desafiar os irmãos com os trabalhos. Há até lugares em que o irmão tem de procurar o que fazer, porque a Província não oferece. De modo que ocorre também do irmão ter de trabalhar independente, ocasionando-lhe, às vezes, certo isolamento. Um desafio à Ordem é um espaço em que os frades possam trabalhar juntos.

Quanto ao serviço da autoridade na Ordem, para ser exercido pelos irmãos leigos, isso já foi pedido à Santa Sé muitas vezes, inclusive com a presença dos ministros gerais. Um passo é que a Santa Sé não se opõe que os guardiães sejam irmãos leigos. Uma esperança para um futuro breve é de irmãos leigos serem vigários provinciais, devido também à nova composição da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada. Relata que, talvez, um medo da Santa Sé seja de que com a possibilidade de irmãos leigos como superiores maiores, as religiosas reivindiquem o mesmo. Essa questão da autoridade deve continuar sendo trabalhada em nosso meio, revendo nossas estruturas clericais que dependem de nós.

Referente à figura do irmão leigo, são bem vistos nas Províncias, raramente são discriminados, mas, a sociedade ainda não entende bem essa nossa expressão laical. Depende também de cada cultura, havendo lugar onde se vê até como uma ofensa não ser padre e ter se tornado irmão leigo. Lembrou, por fim, de Frei John Corriveau que queria ser chamado simplesmente de “irmão”. Isso nos incentiva em nossa vocação, no desafio a sermos realmente irmãos do povo.

Após esta exposição, foi aberto espaço para comentários dos irmãos ao frei Mark. E ele comentou mais um pouco que nos Estados Unidos a maioria dos jovens cursam faculdade e sobre a dificuldade em se conciliar os irmãos leigos e frades presbíteros nos mesmos trabalhos. Frei Gislon enfatizou que na Itália os capuchinhos trabalhavam na roça com o povo, o que marcou profundamente às pessoas, lhes chamando de “frades do povo”, e tendo os irmãos leigos esmoleres realmente os grandes promotores vocacionais.




Veja mais infomações

http://leigoscapuchinhos.blogspot.com/

quinta-feira, 16 de junho de 2011

SANTÍSSIMA TRINDADE: MISTÉRIO DE COMUNHÃO, AMOR E COMPAIXÃO



Quando dizemos que Deus é mistério estamos nos referindo a um Aonde e a um Alguém que faz com que nos sintamos em casa, estáveis e seguros; que nos supera, envolve e protege de um modo absolutamente gratuito e acolhedor; que nos arranca de nós mesmos nos abre ao outro; que nos rouba a passividade e nos põe a caminho. Ele é mistério porque, em sua profundidade, nos espanta e, ao mesmo tempo, nos seduz e nos leva além de nos mesmos e além do tempo presente. Bendito seja o Pai, o Filho e o Espírito Santo, porque é grande seu amor por nós. Glorifiquemos o Deus que é, que era e que vem, porque nele está a fonte da vida e de todo bem. Deixemo-nos abraçar e envolver pelo Deus que se revela como comunidade de amor. Deus amou de tal forma o mundo que, no seu Filho e no Espírito, nos deu o melhor de si mesmo.
“Deus misericordioso e clemente...”
Que as palavras não nos assustem nem escondam o que há de mais precioso em Deus. Que a consciência de que ele é mistério inexplicável não nos impeça de pensar, imaginar e avançar. Se a noção mistério não tem força de sedução e não impulsiona a ultrapassar as fronteiras da compreensão, não serve para nada e, portanto, não pode ser aplicada a Deus. Dizendo que Deus é mistério, afirmanos a necessidade de não ficar nas palavras, a insuficiência dos conceitos, e não o vazio de sentido.
Não podemos agir como pescadores que se encantam mais com as próprias redes que com o mar! O mistério da Trindade não é uma questão numérica. O que importa não é a quantidade – três, quatro ou cinco! Deus não é uma equação a ser resolvida mas uma experiência de profundidade e de profundidade que nos é possibilitada. Deus é uma experiência de um Amor gratuíto que nos envolve por todos os lados, desde sempre, em todas as situações, com todos os nomes.
Quando intuiu este mistério inominável e inapreensível, Moisés “curvou-se até o chão”, prostrado pelo espanto de um abraço assim imerecido e desproporcional: descobriu que Aquele que dá sentido e substância ao nosso ser é “misericordioso e clemente, paciente, rico em bondade e fiel”, lento e vazio de cólera e punição. Moisés imaginava encontrar Deus subindo a montanha e conservá-lo na lei escrita na pedra fria, mas eis que Ele se manifestou descendo e e caminhando no meio do povo.
“Pois Deus enviou seu Filho ao mundo não para condenar o mundo...”
Um Deus que assim se revela e se esconde não tem prazer em limitar a liberdade e as possibilidades de vida das suas criaturas. Pelo contrário, cria e recria tudo permanentemente para que a vida seja sempre mais exuberante, para que todos possam viver bem, como nos lembram os povos originários. Ele é Pai e Mãe, ou vida que está na origem. Ele é Filho, ou vida que se entrega. Ele é Espírito, ou sopro vital e permanente que suscita e sustenta.
É insuficiente e falsa a imagem de um Deus pronto a punir o menor dos desvios daqueles/as que chamou à vida. É uma parcialidade culpável e mal-intencionada ensinar que Deus “não deixa nada impune, castigando a culpa dos pais nos filhos e netos, até a terceira e quarta geração” e, ao mesmo tempo, omitir que “ele conserva a misericórdia por mil gerações, e perdoa as culpas, rebeldias e pecados”. O próprio e original na revelação judaico-cristã é o perdão e a compaixão, e não a punição.
Deus é Pai e Mãe, ou vida e amor que nos antecede, Deus antes de nós. Deus é Filho, ou vida e amor compartilhados, Deus conosco. Deus é Espírito, ou vida e amor em nós, ou Deus em nós e em todas as criaturas, ao ritmo da história. E o amor se caracteriza por chamar à vida e dar proteção, e nunca por limitar ou diminuir a vida. “Pois Deus amou de tal forma o mundo, que entregou o seu filho único, para que todo aquele que nele acredita não morra, mas tenha a vida eterna...”
“Deus amou tanto o mundo que deu seu Filho Unico...”
Proclamando que nosso Deus é “tri-uno” estamos querendo dizer que ele não é solidão ou hierarquia, mas reciprocidade, paridade e comunhão no amor: Amante, Amado e Amor. Na Trindade se revela um Amor com rosto de pai-mãe, amor-fonte de vida; um Amor-dom com rosto de filho-filha, que é amor compartilhado e agradecido; um Amor-comunhão, com a força e o dinamismo de ambos. O Pai da tudo o de si ao Filho, no Espírito, menos sua paternidade; o Filho devolve tudo ao Pai e às criaturas, menos a sua filialidade; e o Espírito é o dinamismo vivo que suscita e sustenta este dom infinito e ininterrupto.
É verdade que dizer que Deus é Amor não ajuda muito. Esta palavra anda tão inflacionada como desgastada. Em nome dele se cometem loucuras e são feitas promessas que não duram mais que uma curta noite de verão. O amor é mais um verbo que um substantivo, e para falr responsavelmente dele devemos ter diante dos olhos o percurso histórico de Jesus de Nazaré: “sabemos o que é o amor, porque Jesus deu a sua vida por nos” (1Jo 3,16).
Suspiros românticos ou gestos de cortezia estão longe de expressar o significado do amor cristão. Amar é potencializar a vida, dar da vida pessoal e, em certos casos, dar a própria vida, como nos enisnou Dom Oscar Romero, São Luís Gonzaga (+ 21.06.1591). É isso que os evangelhos ressaltam na história de Jesus. Assim é Deus: um amor que envia; um amor que se deixa enviar e se entrega; um amor que é a comunhão entre aquele que envia e aquele que vem.
“Para que o mundo seja salvo por ele...”
No coração da melhor teologia desenvolvida pelo cristianismo está a convicção de que Deus não é um conceito a ser compreendido mais ou menos exaustivamente ou uma doutrina a ser aceita mais ou menos resignadamente, mas um mistério a ser adorado. A teologia, pelo menos a boa teologia, está a serviço da evangelização. Ou seja: a questão substancial não é compreender uma teoria mas salvar ou transformar as pessoas e o mundo.
Em Jesus Cristo, Deus se revela não apenas dizendo e ensinando algo sobre si mesmo, mas principalmente agindo, salvando: acolhendo pecadores, alimentando famintos, curando doentes, resgatando a cidadania dos excluídos. Assim, Jesus Cristo revela um Deus que não pode ser aprisionado na fria lei dos códigos de pedra ou de papel, que não assume a postura de um juiz distante e imparcial, mas um Deus que ama, que afirma o direito dos sem-direito, que age e julga em favor dos oprimidos.
Eis o caminho da Igreja, nascida para prosseguir a ação de Jesus Cristo: ser mais pastora que cuida da vida das ovelhas mais frágris e menos professora que ensina leis e doutrinas; sair do limbo dos princípios gerais e vazios e comprometer sua honra e sua influência na defesa dos grupos humanos ameaçados e explorados; engajar-se na urgente missão de salvar o mundo com a força do Evangelho e com os recursos do próprio mundo e evitar uma postura autosuficiente de julgamento e condenação.
“Sejas louvado e exaltado para sempre!”
Ao Deus Uno e Trino servimos eticamente, permanecendo no seu amor e prolongando-o criativamente. Na gratuidade despojada da oração e da celebração, vislumbramos os horizontes intocáveis da sua grandeza e dobramos os joelhos, tomados de espanto e gratidão. E então nosso louvor brota livre, belo e profundo, como uma forma estética do serviço a Deus. O verdadeiro ofício divino ou opus Dei está longe de se resumir ao recital cadenciado de velhos textos.
Daniel nos ensina a manter este louvor agradecido. Ele puxa a ladainha e pede que o acompanhemos num louvor que sabe repassar, como as contas do terço, as manifestações da bondade de Deus: na história dos nossos antepassados; nos homens e mulheres que mantêm a luta nos dias de hoje; na harmonia e na beleza do culto celebrado nos templos; na ousadia daqueles que governam e legislam com o povo e em seu nome; na grandeza do firmamento e na obscuridade misteriosa dos abismos...
“Bendito és tu, Senhor, Deus dos nossos pais!”
Deus querido e amável, Compaixão que não conhece ocaso, Abraço que não conhece limites, Comunhão que acolhe as diferenças, Amor que brilha no esvaziamento: glória a ti nas alturas celestes; glória a ti nos caminhos da história; glória a ti na intimidade das criaturas. Em ti somos, nos movemos e existimos. Tu és o ventre de onde viemos, o caminho que percorremos na companhia de tantos/as e a pátria pela qual anelamos. Ensina-nos a compartilhar o sentir e o pulsar dos irmãos e irmãs de todos os gêneros, gerações e rfeligiões. Que tua graça, teu amor e tua comunhão corram soltas nas veias das Igrejas e vençam as ameaças e punições, as leis e conceitos vazios, as hierarquizações e poderes. Assim seja!
Pe. Itacir Brassiani msf

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Santo Antônio de Pádua

Santo Antônio de Pádua é tão conhecido por seu nome de ordenação que chamá-lo pelo nome que recebeu no batismo parece estranho: Fernando de Bulhões e Taveira de Azevedo. Além disso, ele era português: nasceu em 1195, em Lisboa. De família muito rica e da nobreza, ingressou muito jovem na Ordem dos Cônegos Regulares de Santo Agostinho. Fez seus estudos filosóficos e teológicos em Coimbra e foi lá também que se ordenou sacerdote. Nesse tempo, ainda estava vivo Francisco de Assis, e os primeiros frades dirigidos por ele chegavam a Portugal, instalando ali um mosteiro.

Os franciscanos eram conhecidos por percorrer caminhos e estradas, de povoado em povoado, de cidade em cidade, vestidos com seus hábitos simples e vivendo em total pobreza. Esse trabalho já produzia mártires. No Marrocos, por exemplo, vários deles perderam a vida por causa da fé e seus corpos foram levados para Portugal, fato que impressionou muito o jovem Fernando. Empolgado com o estilo de vida e de trabalho dos franciscanos, que, diversamente dos outros frades, não viviam como eremitas, mas saiam pelo mundo pregando e evangelizando, resolveu também ir pregar no Marrocos. Entrou para a Ordem, vestiu o hábito dos franciscanos e tomou o nome de Antônio.

Entretanto seu destino não parecia ser o Marrocos. Mal chegou ao país, contraiu uma doença que o obrigou a voltar para Portugal. Aconteceu, porém, que o navio em que viajava foi envolvido por um tremendo vendaval, que empurrou a nave em direção à Itália. Antônio desembarcou na ilha da Sicília e de lá rumou para Assis, a fim de encontrar-se com seu inspirador e fundador da Ordem, Francisco. Com pouco tempo de convivência, transmitiu tanta segurança a ele que foi designado para lecionar teologia aos frades de Bolonha.

Com apenas vinte e seis anos de idade, foi eleito provincial dos franciscanos do norte da Itália. Antônio aceitou o cargo, mas não ficou nele por muito tempo. Seu desejo era pregar, e rumou pelos caminhos da Itália setentrional, praticando a caridade, catequizando o povo simples, dando assistência espiritual aos enfermos e excluídos e até mesmo organizando socialmente essas comunidades. Pregava contra as novas formas de corrupção nascidas do luxo e da avareza dos ricos e poderosos das cidades, onde se disseminaram filosofias heréticas. Ele viajou por muitas regiões da Itália e, por três anos, andou pelo Sul da França, principal foco dessas heresias.

Continuou vivendo para a pregação da palavra de Cristo até morrer, em 13 de junho de 1231, nas cercanias de Pádua, na Itália, com apenas trinta e seis anos de idade. Ali, foi sepultado numa magnífica basílica romana. Sua popularidade era tamanha que imediatamente seu sepulcro tornou-se meta de peregrinações que duram até nossos dias. São milhares os relatos de milagres e graças alcançadas rogando seu nome. Ele foi canonizado no ano seguinte ao de sua morte pelo papa Gregório IX.

Na Itália e no Brasil, por exemplo, ele é venerado por ajudar a arranjar casamentos e encontrar coisas perdidas. Há também uma forma de caridade denominada "Pão de Santo Antonio", que copia as atitudes do santo em favor dos pobres e famintos. No Brasil, ele é comemorado numa das festas mais alegres e populares, estando entre as três maiores das chamadas festas juninas. No ano de 1946, foi proclamado doutor da Igreja pelo papa Pio XII

quinta-feira, 2 de junho de 2011

ASCENSÃO: RECONHECIMENTO DA HUMANIDADE E DIVINDADE DE JESUS

Em geral, ascensão lembra um movimento de subida, de elevação, de distanciamento e superioridade a um nível comum e geral. Seria isso o que pretendemos dizer quando proclamamos a ascensão de Jesus Cristo? Ele teria subido ao céu, afastando-se da terra e distanciado-se do comum dos mortais? Mas a ascensão é também uma metáfora que ajuda a expressar a idéia e a experiência de ser destacado, promovido, e reconhecido. Parece ser este o sentido original e mais profundo da boa notícia pregada pelos cristãos a respeito de Jesus: a ascensão é uma outra forma de proclamar a ressurreição de Jesus de Nazaré, de afirmar que a pedra rejeitada pelos construtores tornou-se a pedra principal, de renovar nossa adesão a ele e nosso engajamento na sua missão.

“Para que conheçam a esperança à qual ele vos chama...”
Conhecemos pessoas que perderam a esperança própria do cristanismo: repetem ritos e mais ritos, movidas pelo medo e desejosas de aplacar a ira de um deus feito à imagem e semelhança dos ditadores sanguinários; somam terços, novenas e missas tentando fugir das armadilhas do mundo e ganhar uma suspeita eternidade; multiplicam rezas e devoções para evitar o compromisso com uma libertação que se realiza na história. Uma vida assim desventurada pode ser chamada de cristã?
São Paulo deseja que o Espírito Santo nos revele Deus em sua amável nudez e nos ajude a conhecê-lo em sua profundidade. Conhecer Deus assim como ele se revelou em Jesus de Nazaré significa reconhecer e assimilar a esperança para a qual nos chamou e a herança gloriosa que nos deixou: a de ser seu corpo vivo na história, corpo sob o qual tudo o mais foi colocado e acima do qual nada de significativo existe, fora o próprio mistério de Deus.
Este Jesus Cristo no qual cremos e em nome do qual vivemos não é um espírito que se compraz em esvoaçar acima do mundo. Ele compartilhou conosco a corporeidade e sentiu fome; experimentou conosco a busca e a sede; dividiu conosco a angústia e a ternura; provou como nós o mel do amor e o fel da traição; abriu conosco e para nós um caminho de vida no frio corredor da morte; espalhou sementes de liberdade nas terras infectadas pela erva daninha da indiferença.

“Por que ficais aqui, parados, olhando para o céu?”
É mesquinha a visão que diz que a vida cristã se resume na aceitação resignada de uma doutrina, na harmonia simples e sedutora do cântico gregoriano, na beleza simbólica e profunda dos sacramentos, no suspiro pelo descanso eterno depois de uma vida atribulada. A vida cristã é muito mais que a contemplação extática da plenitude celeste. Os cristãos somos chamados a ser membros do corpo de Cristo, irmãos e irmãs na fraterna comunidade, sacramento da sua liberdade e profecia.
Os discípulos e discípulas de Jesus Cristo não podem resumir sua vida na simples contemplação de alguém que subiu ao céu, mesmo que este alguém seja o próprio Jesus Cristo. “Por que ficais aqui, parados, olhando para o céu?” Professando a ascensão de Jesus, a comunidade cristã quer ressaltar mais uma vez que aquele corpo humano e marcado pelo trabalho, este homem constestado e condenado é assumido e reconhecido pelo próprio Deus como a expressão plena e cabal de si mesmo.
Mas a ascensão não é algo que tem a ver apenas com Jesus de Nazaré. Ele é o primogênito de muitos irmãos e irmãs. Ele é a cabeça de um corpo composto de muitos e variados membros. À glorificação do primogênito segue a honra dos seus irmãos e irmãs, começando pelos considerados menores. À elevação da cabeça segue o reconhecimento da dignidade daqueles que realizam sua vontade. E isso não vale só para um futuro incerto: é fato e convicção já agora.

“Recebereis o poder do Espírito Santo para serdes minhas testemunhas...”
Isso significa também que a ascensão de Jesus Cristo não é apenas o fim de sua presença no meio de nós: é também o início de nossa missão em seu nome. A liturgia da ascensão está inteiramente focada nesta responsabilidade intransferível e inadiável da comunidade cristã. Profundamente convictos de que o Crucificado foi exaltado, os cristãos vencem o medo de tudo e se tornam testemunhas de Jesus Cristo no coração do mundo e nos pulmões da história. E, nesta missão, se recusam a reconhecer fronteiras políticas e culturais e não se intimidam diante da própria fraqueza.
Este testemunho, sendo uma forma de manter viva a memória de Jesus de Nazaré, tem força de transformação. Trata-se de ostentar em nosso corpo as marcas de Jesus Cristo: sentir o que ele sentiu; amar como ele amou; sonhar como ele sonhou; viver como ele viveu; servir os últimos e desafiar os poderes como ele fez. Ser testemunha é anunciar Jesus Cristo e defender aqueles por quem ele deu a vida, é atestar a veracidade do seu caminho e a beleza do seu projeto de vida.
Mas este testemunho não é apenas uma questão de vontade ou de mera imposição. É o próprio Sopro de Deus que nos faz testemunhas: aquele mesmo Espírito que cria tudo a partir da massa informe e vazia; que transforma um monte de ossos secos num povo que caminha e luta; que gera vida no ventre virgem de uma mulher; que une num mesmo objetivo os diferentes membros do corpo; que suscita a profecia num grupo de medrosos e torna ativa e frutuosa uma comunidade antes dependente.

“Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos.”
Como comunidade de irmãos e irmãs, este povo novo que chamamos Igreja, é constituído testemunha “em Jerusalém, na Judéia, na Samaria e até os confins do mundo”. Aqui e em todos os cantos da terra. A missão não tem fronteiras, o testemunho não conhece limites. Ser missionário é sair de si, apenas sair de si, mas sempre sair de si. E isso supõe deixar de pensar que somos maiores e melhores que os outros. E ter presente que o que temos a oferecer é um caminho de discipulado, de busca de Deus e seu Reino.
A referência da missão não somos nós individualmente, nem simplesmente a Igreja. Somente em Jesus Cristo repousa a autoridade no céu e na terra, e diante dele todos dobramos os joelhos. E não esquecemos que esta autoridade lhe vem da fidelidade até à cruz, e não da submissão à lógica do mundo, como lhe fora proposto pelo tentador (cf. Mt 4,8). É dele que recebemos a ordem de partir mundo como ovelhas entre lobos, como embaixadores de um novo céu e uma nova terra.
A palavra de Jesus Cristo atesta que sua ascensão não é um movimento de distanciamento em relação aos seus discípulos e discípulas, nem uma fuga do mundo e das suas tensões e disputas. “Estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos...” Todos os dias! E até que este mundo, graças à ação suscitada e sustentada nos cristãos pelo Espírito Santo, dê lugar a um outro mundo, àquele mundo sonhado e desejado por Deus desde sempre, ao Mundo Novo que é a finalidade da criação.

“Aclamem a Deus com gritos de alegria”
A ascensão de Jesus é a realização do cântico de Maria: Deus mostrou a força do seu braço elevando os humildes e derrubando os poderosos. É a confirmação da ensino de Jesus: os últimos para o mundo são os primeiros no Reino de Deus. É a validação da nossa esperança: a justiça e o amor são mais fortes do que a morte. É a mais nobre proclamação da dignidade dos sem-dignidade. É a descoberta da continuidade da missão de Jesus mediante o engajamento generoso daqueles/as que nele acreditam.
Que o Espirito Santo nos ajude a conhecer Deus em profundidade e nos liberte da tentação de reduzí-lo à pequena dimensão dos nossos medos e interesses pessoais e eclesiais (tão em moda ultimamente!). Movidos pelo Espírito, aclamemos com alegria jubilosa a manifestação de Deus na humanidade de Jesus de Nazaré e na comunidade dos discípulos e discípulas que ousam viver e agir em seu nome. Que ele ajude a Igreja a descobrir sua condição de corpo de Cristo, subordinada e obediente somente a ele.
Deus Pai e Mãe, mistério de amor que acolhe e envia, que gera comunhão e dispersa em missão, que une compaixão e justiça: aqui estamos reunidos/as para pedir que em nós se cumpra tua promessa. Envia à tua Igreja e a cada fiel o fogo do teu Espírito. Faze de nós uma comunidade em missão, um povo que congregue no seu seio todos os homens e mulheres de boa vontade, que seja uma imensa caravana empenhada no resgate da cidadania e da dignidade dos teus filhso e filhos, em todos os quadrantes da terra. Ajuda as Igrejas que nasceram do lado aberto do teu Filho crucificado a buscarem a unidade, sem superficilismos e sem desculpas. E não nos deixes cair na tentação do cinismo imperialista, da violência terrorista, da intolerância punitiva, da concorrência odiosa, da acomodação esterilizante. Assim seja!
Pe. Itacir Brassiani msf