domingo, 23 de janeiro de 2011

sábado, 22 de janeiro de 2011

Quem ainda acretita que o reino de Deus está próximo?

(Is 8,23-9,3; Sl 26/27; 1Cor 1,10-13.17; Mt 4,12-23) 23.01.2011 – Pe. Itacir
Aquele que fora anuniado como o Cordeiro de Deus vai ao encontro dos últimos da sociedade e estabelece sua morada entre eles. A partir de um mundo periférico e tenebroso, Jesus de Nazaré anuncia viabiliza uma novidade que muda radicalmente o mundo: a chegada do Reino de Deus. Para acolher e levar adiante este sonho indomável, Jesus continua chamando homens e mulheres de boa vontade, aos quais pede unicamente que abram os olhos e a mente à novidade em curso e tenham a coragem de romper os compromissos tácitos ou explícitos com os velhos e às vezes dourados sistemas de dominação. Mas o chamado de Jesus não costuma começar nos templos suntuosos, nas academias famosas ou nos sedutores shopings centers, e o evento da conversão de Saulo (25 de janeiro) continua sendo uma parábola viva a nos alertar sobre os riscos de uma fé tão ardente e zelosa quanto cega.

“Quando soube que João tinha sido preso, Jesus retirou-se para a Galiléia.”
O evangelho de hoje inicia com uma nota histórico-geográfica: Jesus começa resolutamente sua missão depois que lhe chega a notícia da prisão de João Batista. Ele trazia ainda muito viva a recente experiência do encontro com o profeta e amigo à beira do rio Jordão, a consciência luminosa e provocadora de ser filho amado e servo dedicado (3,13-17), e não esquecera a prova das tentações, antecipação do confronto duro e exigente que marcaria toda sua missão (4,1-11).
Jesus deixa sua pequena e querida Nazaré e se muda para a Galiléia, mais precisamente para Cafarnaum, às margens do mar. A referência à antiga denominação “território de Zabulon e Neftali ressalta que esta terra é dom de Deus ao seu povo, lembra sua insignificância geo-política, recorda que este é o palco de uma violenta deportação no passado e afirma que é neste lugar que é reacesa a luz da esperança e resuscitado um canto de alegria. A escolha de Jesus não é fortuita.

“Galiléia entregue às nações pagãs...”
O evangelista sublinha a importância desta escolha de Jesus recorrendo ao profeta Isaías. Este caracteriza a região como sendo dominada pelos pagãos (“Galiléia entregue às nações pagãs”). Com esta expressão Mateus não se refere à prática religiosa dos seus habitantes, mas à marcante presença dos dominadores romanos. Trata-se de uma região ocupada e governada pelo império romano. As elites locais garantiam sua parcela de poder e influência cooperando com os invasores.
Com a ajuda do profeta Isaías, Mateus descreve a situação do povo da região recorrendo a algumas metáforas: trevas/sombra/morte; canga/chicote/vara. O sentido destas imagens ultrapassa o contexto histórico das ameaças da Síria contra Judá (século VII aC) e caracteriza tudo aquilo que é contrário aos propósitos divinos de vida e liberdade para seu povo. Tanto a escuridão como a canga denotam atos e estruturas políticas, sociais, econômicas e religiosas que oprimem o povo.
Jesus escolhe seu novo endereço guiado e fortalecido pelo Espírito de Deus. Ele não muda de Nazaré para cidades maiores e importantes como Tiberíades (importante cidade portuária construída em homenagem ao imperador Tibério) ou Séforis (centro cultural do império). Como cidadão judeu num território controlado por Roma, Jesus decide situar-se à margem, junto à população empobrecida e marginalizada, longe daqueles que colaboram com o império e ao lado daqueles que a ele resistem.

“O povo que andava nas trevas viu uma grande luz...”
Com a presença de Jesus Cristo, a noite da opressão se transfirgura em noite da libertação, a periferia se converte em centro de renovação, a canga e a vara que encarnam a dominação viram lenha de fogueira. Gritos e cantos de alegria substituem o clamor de um povo submergido nas sombras da morte. E qual é a razão dessa mudança? Tudo brota do alegre e jubiloso anúncio de Jesus: “Convertei-vos, pois o Reino dos Céus está próximo!”
Jesus se apresenta como aquele que Deus envia para desatar o pesado fardo do pecado, amarrado às costas do povo. Deus não age como juiz mas como salvador. Ele não se fecha nos tribunais, mas desce do trono e vem ao encontro dos últimos para instaurar seu reino de paz e de justiça. Seu reino é dinamismo atual de liberdade e de vida abubdante, não promessa vazia para um futuro distante. E esta é uma novidade tão inesperada e revolucionária que exige uma radical conversão no modo de pensar.
Mas Jesus não se limita a anunciar a proximidade do Reino dos céus. Ele se empenha em demonstrar sua presença mediante ações claras e inequívocas. Segundo o evangelista, ele “percorria toda a Galiléia, ensinando nas sinagogas, anunciando a Boa Nova do Reino e curando toda espécie de doença e enfermidade do povo.” Jesus restaura a integridade física dos doentes, possibilita a reinserção social dos excluídos, derrota as forças que oprimem o povo e vence um mundo radicalmente enfermo.

“Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens.”
Com Jesus e em torno dele começa uma nova história, uma história outra, diversa da história de poder e opressão patrocinada e contada pelos vencedores. E exatamente porque é nova e diversa, esta história não gravita em torno de um só personagem, mesmo que este seja o Messias. Liberdade e dignidade não são coisas ou títulos que podem ser adquiridos ou concedidos, mas dinamismos exercitados em primeira pessoa. Sem envolvimento pessoal na ação não há liberdade que seja digna do nome.
É por isso que, junto com o anúncio e a demonstração da irrupção dos áureos tempos esperados, Jesus age chamando discípulos e associando-os à sua missão. Em torno dele, estes discípulos formam uma espécie de comunidade alternativa, centrada na vivência, no anúncio e no serviço ao Reino de Deus. O chamado de Jesus é uma espécie de contestação da pretensa imutabilidade da ordem dominante e uma demonstração da fecundidade da força alternativa que vem de Deus.
Os primeiros a serem chamados para esta comunidade alternativa são duas duplas de irmãos, todos eles galileus marginais que se ocupavam da pesca. Os pescadores eram socialmente desprezados e equiparados aos agiotas, mas, por causa do trabalho, eles também estavam envolvidos com o poder político e econômico do império: como o peixe era considerado mercadoria do império, os pescadores deviam obter das autoridades uma licença e pagar taxas de pesca e de transporte.

“Deixando imediatamente o barco e o pai, eles o seguiram.”
O evangelista ressalta a resposta positiva, imediata e incondicional dos pescadores ao chamado de Jesus. A decisão de seguir alguém comporta sempre, além da confiança naquele que é retido como mestre, um custo social e econômico considerável. Este custo social e econômico aparece na mudança de atividade: tornar-se pescador de homens significa perder seguranças e advertir profeticamente as elites que se banqueteiam indiferentes à ruína dos pobres (cf. Jr 16,16; Am 4,2).
O custo social desta ruptura fica mais explícito no caso dos filhos de Zebedeu. Mateus diz que eles deixam imediatamente “o barco e o pai”, destacando assim a ruptura com os valores e obrigações da família patriarcal e o início de uma família alternativa. Se para a família patriarcal os filhos têm valor de apólice de seguro para a velhice, para a comunidade cristã esta apólice é representada pela adesão a Jesus e pela dedicação à vinda do Reino de Deus.
Na comunidade cristã não se entra legitimamente em busca de asilo afetivo ou de cidadania numa pretensa civilização cristã, mas unicamente para realizar o sentido definitivo da nossa vida: viver relações que nos mantenham solidários/as com os outros, abertos/as ao futuro, sedentos/as de Deus e seu Reino. Sem romper com as velhas e pesadas lealdades que nos amarram aos sistemas de poder que sempre privilegiaram as elites não há como ser autêntico/a discípulo/a de Jesus.
Deus querido, pai e mãe de uma humanidade ferida e sedenta de vida. Te louvamos porque nos enviaste teu filho amado como sinal do teu amor libertador. Ele quis começar sua missão pela periferia do mundo e continua associando à sua missão homens e mulheres pouco influentes mas muito sonhadores. Faz ressoar em nossos ouvidos o convite suave e forte que ele não cessa de fazer. Dá-nos a liberdade que nos faz fortes para romper com os esquemas deste mundo e lançar as sementes de uma nova humanidade, prefigurada em famílias abertas e inclusivas e em comunidades cristãs solidárias e totalmente empenhadas na tarefa de conduzir todas as pessoas e povos à tua única e querida família. E no nos deixe jamais caminhar solitários/as! Amém.
Pe. Itacir Brassiani msf

domingo, 28 de novembro de 2010

"VEM , Ó SENHOR, COM O TEU POVO CAMINHAR"

(Is 2,1-5; Sl 121/122; Rm 13,11-14; Mt 24,37-44) 1º dom Advento (Pe.Itacir Brassiani)
O Advento é um tempo que nos convida a mergulhar fundo na mística cristã. É tempo de espera e de esperança, de atenção e de vigilância, de alegre preparação da vinda do Senhor, de abertura profunda e de súplica insistente para que seu Reino de Deus se faça visível no meio de nós. Neste caminho feito em quatro etapas, somos acompanhados e guiados por algumas comapnheiras e companheiros muito significativos: os profetas Isaías e João Batista; o jovem casal Maria e José; os apóstolos Paulo e Tiago. Ao lado destas figuras, a comunidade dos pobres do Senhor alimentam nossa esperança com salmos belíssimos, nascidos no ventre de uma história fecundada pela certeza de que toda espera e todo ardor desabrocharão em plena alegria. Por isso, do início ao fim desta caminhada, cantamos: “Vem, ó Senhor, com o teu povo caminhar! Teu corpo e sangue vida e força vêm nos dar!”


“Vinde, vamos caminhar à luz do Senhor!”
As comunidades cristãs da América Latina canonizaram a caminhada como metáfora daquilo que fazem, crêem e esperam. Esta imagem lembra que Jesus é o Caminho, que crer nele significa caminhar com ele, seguir seus passos e reinventar sua compaixão. Esta imagem de caminho também repõe sempre de novo a epopéia daquele punhado de escravos que, sendo marcados a ferro o fogo pela opressão e pela morte, fazem seu êxodo em direção a uma terra e um projeto de sociedade sem males.
Entretanto, a imagem do caminho não se esgota na memória e na proposta de uma sempre necessária travessia. Ela nos faz lembrar também que o êxodo em direção a um novo céu e uma nova terra só é possível porque o próprio Deus desce e vem ao nosso encontro, escutando os surdos clamores dos oprimidos, assumindo a humana carne dos excluídos, restaurando a dignidade dos condenados. É o Advento de Deus na ambiguidade da história que possibilita o Êxodo em direção a uma nova história.
Por isso, no Advento somos convidados/as a caminhar alegres e expectantes ao encontro de Algo que está nascendo e de Alguém que está vindo ao nosso encontro. Caminhamos confiantes, pois o próprio Deus encurta a estrada e abrevia o tempo, vindo ao nosso encontro em Jesus de Nazaré, mostrando sua glória na nossa carne, armando sua tenda em nossos acampamentos. Porque Deus está sempre advindo a nós em seu reino, podemos empreender seguros o êxodo que ele nos pede.


“Assim acontecerá também na vinda do Filho do Homem.”
Damos por certo que “Aquele que vem” é o Filho de Deus. Mas não é exatamente isso que o evangelho de hoje nos diz! Quando se refere a si mesmo, Jesus escolhe conscientemente a expressão Filho do Homem. Enquanto nós preferimos afirmar que este profeta que nasceu em Belém, viveu em Nazaré, adquiriu fama na Galiléia e foi morto em Jerusalém é filho de Deus, ele mesmo insiste que o Messias compassivo e solidário, aquele que resgata a dgnidade dos últimos, é filho da humanidade.
Esta expressão, inspirada na visão do profeta Daniel (cf. Dn 7,13) aparece mais de 80 vezes nos evangelhos, o que demonstra sua importância. Na visão de Daniel, a imagem de “alguém semelhante a um filho de homem” expressa a expectativa do surgimento de uma comunidade radicalmente humana, diferente dos impérios e reis que oprimem e agem como monstros. Com esta imagem, Jesus sublinha sua condição humana (paixão e compaixão) e alude à nova humanidade que se reúne ao seu redor.


Nesta perspectiva, neste tempo de Advento a Palavra de Deus pede que purifiquemos nosso olhar e concentremos nossa atenção nos sinais e processos de humanização que estão em andamento e pedem passagem. Evitemos a piedosa ilusão de esperar que Deus entre no mundo de modo espetacular e miraculoso, ou então de uma forma intimista, limitada pela estreiteza e pela ambiguidade do nosso coração, ou ainda da tentação colorida de prendê-lo nas vitrines e encontrá-lo nos shopings centers.


“Já é hora de despertardes do sono!”
Jesus nos previne sobre os riscos de uma fé vivida sem responsabilidade histórica. Recordando o que acontecera no tempo de Noé, ele lembra que as rotinas e compromissos cotidianos, impostos pela ditadura da sobrevivência ou dos interesses estreitos e imediatos, pode nos levar a uma perigosa distração em relação ao que é essencial. Jesus não é um moralista interessado em condenar as festas, a gula ou a bebedeira, mas um profeta que chama a atenção àquilo que é definitivamente esencial.

Escrevendo aos Romanos e usando outras palavras, Paulo se refere ao mesmo risco. Vivemos numa cultura da distração. A oferta de uma quantidade estonteante de mercadorias, a possibilidade de infinitas e sempre novas experiências, o acesso facilitado aos lugares mais exóticos, têm um só objetivo: evitar que nos confrontemos com as questões fundamentais que nos interpelam como pessoas e como humanidade. A enxurrada de bens e possibilidades nos envolvem como uma noite, e nós dormimos.


“Nada de glutonerias e bebedeiras, nem de contendas e rivalidades!”
É aqui que a mística do Advento entra como um despertador e nos acorda do sono letárgico. Infelizmente, o tempo de espera vigilante foi transformado em tempo de comércio alucinante, e a única coisa que se espera é receber um bom presente ou conseguir pagar as despesas das festas. As milhares de luzes que piscam e seduzem os incautos não são mais que sinais da noite que nos envolve. “Já é hora de despertardes do sono. A noite está quase passando e o dia vem chegando.”
Paulo pede que evitemos brigas e rivalidades. Além dos sangrentos conflitos que contrapõem cidadãos e imigrantes, ocidentais e orientais, ricos e pobres, consumidores e excluídos, civilizados e bárbaros... há a competição pelo maior número de fiéis, pelo presente mais fabuloso, pela carreira mais fulgurante, pelo maior faturamento nas vendas natalinas, pelo menor preço e maior qualidade, pela conquista dos mercados emergentes... É uma noite plena de pesadelos e ameaças.

Paulo nos convida também à sobriedade no comprar, no comer e no beber. Não se trata da austeridade, característica de quem despreza o que dá prazer, mas da sobriedade de quem sabe que está no mundo como hóspede e se deixa guiar por um sonho que armará sua tenda na história. Comemos e bebemos sobriamente para celebrar o advento de Deus na humanidade, mas temos consciência de que o Reino de Deus não se resume em comer e beber. “Teu corpo e sangue vida e força vêm nos dar...”


“E nunca mais se treinarão para a guerra...”
Alcançamos e construímos o Reino de Deus seguindo a estrada sinalizada pelo profeta Isaías e percorrida responsavelmente por Jesus Cristo. E este via passa por uma radical inversão dos valores e prioridades que, via de regra, regem nossa vida e orientam as instituições. Isaías fala em destruir espadas e lanças e refundi-las em foices e arados. Em outras palavras: substituir a competição violenta e predatória pela produção e distribuição de comida, alicerce de uma vida realmente pacífica.

A violência não é exclusividade das guerras. O teólogo Raimon Panikkar não cansou de denunciar a instrínseca violência da razão ocidental moderna. A cultura que predominou no ocidente nos últimos séculos é uma cultura armada, que transforma a razão numa arma para convecer e vencer. Há uma continuidade entre a razão que quer controlar a verdade e a corrida armamentista. Acredita-se que a paz seja alcançada mediante a derrota e a destruição do adversários. Frutos desta razão belicosa são, entre outros, a competição predatória na economia e a criminalização social dos migrantes.

A preparação para o Natal, que é também preparação do advento de uma nova humanidade e um outro mundo, passa pelo desarmamento geral da cultura e das instituições. A suspeita que o ocidente lança sobre as utopias teocráticas deve ser completada com a crítica que o oriente faz aos impérios tecnocráticos. De qualquer modo, acolher o filho do homem que vem e percorrer seus caminhos implica em abandonar de vez todos os ‘sagrados’ valores da competição e do confronto.


“Revesti-vos do Senhor!”
Ó Pai, em Jesus, Maria e José destes à humanidade teu mais precioso presente. E através desta família recebeste a mais profunda e generosa resposta humana a este dom. Dá-nos a preciosa companhia desta família nestas semanas de espera vigilante, alegre e ativa. Que ela nos ajude a vencer a letárgica distração que nos oferecem como se fosse remédio, a escutar atentamente tua Palavra viva e a superar uma razão perigosamente violenta. E que possamos acolher teu Reino como nosso Sonho e teu Filho, que é também Filho do Homem, como mestre e companheiro neste caminho.
Pe. Itacir Brassiani msf

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Que toda a humanidade seja uma só família

(Eclo 31,15-17.20-22; Sl 33/34; 2Tm 4,6-8.16-18; Lc 18,9-14)(24.10.2010)Pe. Itacir Bassiani
Há mais de 80 anos, a Igreja católica dedica o penúltimo domingo do mês de outubro à oração pelas missões. No Brasil, todo o mês de outubro é dedicado especialmente à reflexão e à animação missionárias. Somos convidados/as a celebrar a memória do Senhor e a ouvir sua Palavra sintonizando o bater do nosso coração, o ritmo dos nossos passos e o olhar da fé com a missão. Que nossa oração evite a presunção da superioridade e brote da humilde consciência de que, infelizmente, o coração de nossas comunidades ainda não bate ao ritmo da missão. Mas, acima de tudo, confirmemos nosso engajamento no projeto de Deus que deseja, como diz Bento XVI, “que todo gênero humano constitua um só povo de Deus, se congregue num só corpo de Cristo e se edifique num só templo do Espírito Santo”.
“O Senhor é um juiz que não faz discriminação de pessoas.”
Por mais que se queira negar ou maquiar, nosso mundo está estruturalmente dividido. Não é necessário viajar pelo mundo a fora para perceber que, em termos gerais, os países do hemisfério norte, outrora denominados Primeiro Mundo, vivem na abundância de bens e oportunidades, enquanto que os países do hemisfério sul são condenados a digerir a miséria à qual a secular expropriação os condenou. Esta divisão se mantém hoje através das barreiras legais impostas aos migrantes que fogem do sul.
Existem também divisões entre pessoas e grupos sociais. Não se trata apenas de diferença – que é um valor e um direito a ser defendido – entre pessoas, etnias e grupos, mas de divisão que hierarquiza e exclui muita gente. Basta lembrar da primazia que a cultura e os meios de comunicação dão às pessoas e grupos ocidentais, brancos, masculinos, cultos e ricos. É evidente que os orientais, os negros e índios, as mulheres, os analfabetos e os pobres são tratados como inferiores.
Quando sublinhamos a evidência desta divisão, vozes se levantam acusando-nos de filo-marxistas, tendenciosos e interesseiros. Mas é preciso lembrar que a Palavra de Deus não faz olho grande frente a esta divisão. Ao contrário, a bíblia inteira, especialmente os escritos proféticos e os evangelhos, mostram que Deus denuncia essa divisão como inaceitável e toma partido em favor das pessoas e grupos mais fracos: os escravos e estrangeiros, as viúvas e os órfãos, os pobres e os excluídos.
“Dois homens subiram ao templo para rezar.”
Esta divisão entra também dentro das nossas igrejas? Infelizmente, devemos dizer que sim. Para confirmar, basta dar uma olhada atenta à primazia conferida às Igrejas européias – à teologia, ao direito e à liturgia por elas elaboradas – no confronto com as Igrejas do (mal dito) Terceiro Mundo. Não obstante a notável ajuda econômica que as primeiras versam nos cofres vazios das segundas, não é raro ouvir ainda hoje de altos hierarcas que todos os cristãos devem assimilar a fé na sua versão européia.
E tem ainda aquela profunda e dolorida divisão – que às vezes se transforma em oposição e em condenação recíproca – entre as próprias comunidades cristãs: ortodoxos e romanos, católicos e protestantes, igrejas clássicas (católicas e evangélicas) e igrejas pentecostais, etc. Como pode ser agradável a Deus um culto no qual membros desta ou daquela igreja se gloriam de não ser como os outros: idólatras, mal-intencionados, interesseiros, exploradores da fé do povo?
A este propósito é impressionante o testemunho do apóstolo Paulo. Ele combate com tenacidade a postura de superioridade dos judeus e dos novos cristãos de origem judaica em relação aos pagãos ou aos cristãos vindos do paganismo. Quando ele escreve, em forma de testamento, que combateu o bom combate, completou a corrida e guardou a fé, está se referindo à sua convição de que Cristo é nossa paz, pois de dois povos fez um só povo, derrubando o muro da inimizade que os separava (cf. Ef 2,14).
“A prece do humilde atravessa as nuvens...”
No centro do evangelho de hoje está a questão da correta atitude de quem reza. Se, no último domingo, Jesus nos pedia para não desistir de rezar, hoje ele nos pede atenção sobre como rezamos. Em forma de parábola, Jesus confronta a postura de dois personagens bem conhecidos: o fariseu, cioso de sua superioridade e perfeição, isolado das pessoas comuns, ostensiva e exteriormente piedoso; o publicano, cobrador de impostos, colaborador do poder estrangeiro, impuro e execrável aos olhos dos judeus nacionalistas, excluído da vida social e religiosa que gira em torno do templo.
Desejoso de ser visto e reconhecido, o fariseu reza de pé e olha os demais de cima para baixo; sua oração é uma espécie de auto-elogio e, ao mesmo tempo, desprezo e condenação dos demais; é como se fosse o próprio Deus que devesse agradecê-lo por ser tão bom e correto. O publicano praticamente não entra no templo e, sem coragem mesmo de levantar os olhos, bate no peito reconhecendo sua condição ambivalente e pedindo que Deus se compadeça.
É bem possível que estas diferentes posturas na oração não seja um problema somente do judaísmo. Se Lucas nos traz esta questão é porque ela estava presente também nas comunidades cristãs. A ostentação e a pretensão de superioridade, sempre acompanhadas de uma agressiva discriminação, contaminaram também os cristãos e infelizmente resistem, como erva daninha difícil de erradicar, até nossos dias. E quase sempre vêm revestidas com a atraente roupagem da piedade.
“O pobre clama a Deus e ele escuta...”
Desde a parábola de Abel e Caim , sentimo-nos incomodados diante da imagem de um Deus que não trata a todas as pessoas do mesmo modo. Imaginamos um deus com os olhos vedados, como a clássica imagem da justiça. Como diante da lei todos seriam iguais, a justiça não pode ter preferências. Mas Deus não é assim. “Ele não é parcial em prejuízo do pobres, mas escuta, sim, as súplicas dos oprimidos; jamais despreza a súplica do órfão, nem da viúva, quando desabafa suas mágoas.”
A humanidade que queremos única começa a ser gerada exatamente quando, em nome de Deus, evitamos a parcialidade que relega os fracos a um sofrimento contínuo e assumimos a luta pelos seus direitos não reconhecidos ou não atendidos. A sonhada humanidade chamada a ser única família não será uma realidade enquanto insistirmos numa igualdade apenas formal das pessoas, uma igualdade negada descaradamente pelas escandalosas desigualdades econômicas, sociais e culturais.
Voltemos a Abel e Caim (cf. Gn 4,1-16). Abel é pastor, não tem terra, vive como migrante, numa insegurança estrutural. Caim é agricultor, administra uma propriedade, goza de estabilidade. Não há porque estranhar quando o texto sagrado diz que “o Senhor olhou para Abel e sua oferta, mas não deu atenção a Caim com sua oferta”. O que Caim era realmente acaba vindo à tona logo em seguida: se mostra absolutamente indiferente e mortalmente violento com seu irmão.
“Ele fez com que a mensagem fosse anunciada integralmente...”
A humanidade está vocacionada a ser uma só família. A interdependência dos povos e nações é já um fato objetivo, mas é preciso lutar para que se torne um valor assimilado subjetivamente. Todos sabemos que um acontecimento econômico relevante nos EUA repercute positiva ou negativamente em todo o globo, e que uma crise política no Oriente Médio agita as bolsas de valores e, interferindo na cotação do petróleo, penaliza os produtores dos mais remotos rincões do mundo. A interdependência é um fato.
Mas o desafio – e nisso a missão dos cristãos pode contribuir enormemente! – é transformar esta solidariedade num valor a ser positivamente buscado e assegurado em favor de todos. A dignidade da pessoa humana independe de sua origem étnica, pertença religiosa, nacionalidade, convicção política, identidade sexual ou grau de instrução. Estas diferenças não dividem, nem hierarquizam; apenas distinguem, complementam e enriquecem.
“Combati o bom combate, completei a corrida...”
Voltemos ao início: quando rezamos não podemos querer consolidar nossa pretensa superioridade (pessoal ou eclesial), nem passar panos quentes ou até alimentar a divisão real que fere os filhos e filhas de Deus. Por isso, amável Deus Pai-Mãe, que fazes a prece do humilde atravessar as nuvens, despoja-nos de todo orgulho arrogante e de toda competição infantil. Ajuda-nos a anunciar teu Evangelho integralmente e contribuir eficazmente para a solidariedade fraterna entre pessoas, religiões e povos. Até que a humanidade seja de fato uma família, na qual todos os membros são queridos e respeitados.

Pe. Itacir Brassiani msf

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Dia de Nª Srª Aparecida em São José do Norte

Na cidade de São José do Norte, no dia 12 de outubro - dia de Nossa Senhora Aparecida, a Casa Fonte Colombo e a Pastoral da Aids marcaram presença na homenagem a santa.

Segundo Frei Eduardo Pazinatto foi uma oportunidade para conhecer a realidade da região, conversar sobre HIV/DST/Aids e incentivar para realização do teste da Aids. Freis Eduardo Canali e Mauro da Rosa que trabalham da paraquia são José acolhram e insetivaram a ação de prevenção realizada.

Romaria de Nª. Senhora de Guadalupe - Pelotas

“Com Maria, solidários na caridade”. Este é o tema da 25ª Romaria Diocesana de Nossa Senhora de Guadalupe que ocorreu no dia 17 de outubro, no Santuário da Cascata em Pelotas.

Na oportunidade os agentes da pastoral da Aids informaram e orientaram os participantes da romaria e disponibilizaram materiais que as lideranças levaram para seus grupos e comunidades. Todos afirmaram a importância de ter subsídios informativos e educativos para os grupos e pastorais.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Romaria de Nossa Senhora de Fatima e Visita a São José do Norte



Aconteceu no segundo domingo,10 de Outubro, em Rio Grande a 36ª Romaria de Nossa Senhora de Fátima que teve como tema "Com Maria solidários na Caridade". Às 9h, teve início a Romaria que reuniu aproximadamente 10 mil fieis, com saída da frente do Santuário. Os fiéis acompanharão a imagem da santa por várias ruas da cidade, percorrendo em torno de três quilômetros até o Centro Municipal de Eventos. Centro de Eventos, local de chegada dos peregrinos onde houve a missa presidida pelo bispo diocesano dom José Mário Stroeher e concelebrada pelos bispos dom Gilio Felício, de Bagé, dom Jacinto Bergmann, de Pelotas, e dom Jayme Chemello (bispo emérito). E também por vários padres da Diocese do Rio Grande. Na oportunidane foi colocada uma stand com material informativo da Casa Fonte Colombo e da Pastoral da Aids onde os romeiros puderam obter informações sobre HIV, Aids e DST.

Neste mesmo final de semana, feriado de aparecida, tive a oportunidade de ficar em são José do Norte na casa dos Freis Eduardo Canali e Frei Mauro. tive a oportunidade de conhecer a realidade da Região e participar da Carreata de Nossa Senhora de Aparecida que culminou na celebração eucarística no locar onde será construída uma nova comunidade pertencente a paróquia.