quarta-feira, 30 de maio de 2012

Reunião da Coordenação e equipe de reflexão da Vida Religiosa Inserida e Solidária


Nesta segunda - feira, 28 de maio aconteceu na Casa Fonte Colombo à reunião da Coordenação e equipe de reflexão da Vida Religiosa Inserida e Solidaria. O Grupo é formado pela Ir Eurides Oliveira, Irmão Miguel Antonio Orlandi, Ir. Clarice Rech, Irmão Julio Ricardo Alf, Ir. Maria Helena Lorscheiter, Frei Orestes Alexandre Serra, Ir. Anna Marisa Werner e Frei Eduardo Pazinatto. Após uma breve oração o grupo refletiu o texto: “ENVIA-NOS TEU ESPÍRITO DE INDIGNAÇÃO PROFÉTICA!” do Padre Itacir Brassiani msf.
Este Grupo a mais tempo vem se reunindo de dois e dois meses para refletir temas relacionado a profecia e missionariedade da vida religiosa Inserida e Solidária do Rio Grande do Sul, assim como organiza duas atividade anuais: Um no primeiro semestre direcionado a Espiritualidade da vida Religiosa e um no segundo semestre direcionado a vida Profética e Missionário dos religiosos(as) que estão inseridos nos meios populares. Nesta Reunião o grupo também planejou o proximo seminári0 que será em agosto deste ano.
A todos os religiosos(as) fica o convite para participar deste seminário que será de 10 a 12 de agosto de 2012

terça-feira, 15 de maio de 2012

Meu Canto

Correr riscos? Aventurar-se?

Abandonar as seguranças?

Tudo me convida hoje a permanecer tranqüilo.

A calefação convida-me a não sair do frio.

Os programas de televisão convidam-me a ficar sentado longas horas.

Minhas comodidades, meus pensamentos, minha solidão e meu futuro não me permitem sonhar, nem cortar as amarras.

Sinto, porém, que em mim, bate bem forte a vida.

Experimento o desafio cotidiano da montanha que precisa ser escalada,

da dificuldade que precisa ser superada,

e também do perigo, para que eu não me deixe vencer antes de tentar a luta.

Sinto o amor arder poderoso em mim,

Impulsionando-me a me aproximar e compartilhar,

A reconhecer meus irmãos e minhas irmãs,

e a doar minhas forças,

A fim de edificar um mundo justo.

Não posso permanecer passivo e resignado.

Não posso viver sem querer arriscar.

Por isso, amigo, amiga, segura a minha mão

Para percorrermos juntos o caminho inteiro.

Ajuda-me a sair dos meus fechamentos,

A derrotar a escravidão,

A descobrir a novidade que se encerra na vida de cada dia.

Quero conquistar meu tempo e construir minha liberdade.

Sou um aventureiro, aventureira da esperança.

Sou peregrino, peregrina da alegria.

Sou um trovador, trovadora da justiça.

Meu canto é um compromisso

E meu beijo é uma saudação emocionada ao Deus que sorri para mim!

(Miguel Ortega)

sexta-feira, 30 de março de 2012

Clara de Assis: a coragem de uma mulher apaixonada

Há 800 anos, na noite de 19 de março de 1221, dia seguinte à festa de Domingos de Ramos, Clara de Assis, toda adornada, fugiu de casa para unir-se ao grupo de Francisco de Assis na capelinha da Porciúncula que ainda hoje existe. As Clarissas do mundo inteiro e toda a Família Franciscana, celebram esta data que significa a fundação da Ordem de Santa Clara espalhada pelo mundo inteiro.

Clara junto com Francisco - nunca devemos separá-los, pois se haviam prometido, em seu puro amor, que "nunca mais se separariam” segundo a bela legenda época - representa uma das figuras mais luminosas da Cristandade. É bom lembrá-la neste mês de março, dedicado às mulheres. Por causa dela, há milhões de Claras e Maria Claras no mundo inteiro. Ela, de família nobre de Assis, dos Favarone, e ele, filho de um rico e afluente mercador de tecidos, dos Bernardone.

Com 16 anos de idade quis conhecer o então já famoso Francisco com cerca de 30 anos. Bona, sua amiga íntima conta, sob juramento nas atas de canonização, que entre 1210 e 1212, Clara "foi muitas vezes conversar com Francisco, secretamente, para não ser vista pelos parentes e para evitar maledicências”. Destes dois anos de encontro nasceu grande fascínio um pelo outro. Como comenta um de seus melhores pesquisadores, o suíço Anton Rotzetter em seu livro Clara de Assis: a primeira mulher franciscana (Vozes 1994): "neles irrompeu o Eros no seu sentido mais próprio e profundo, pois sem o Eros nada existe que tenha valor, nem ciência, nem arte, nem religião, Eros que é a fascinação que impele o ser humano para o outro e que o liberta da prisão de si mesmo”(p. 63). Esse Eros fez com que ambos se amassem e se cuidassem mutuamente, mas numa transfiguração espiritual que impediu que se fechassem sobre si mesmos. Francisco afetuosamente a chamava de a "minha Plantinha”.

Três paixões cultivaram juntos ao longo de toda vida: a paixão pelo Jesus pobre, a paixão pelos pobres e a paixão um pelo outro. Mas nesta ordem. Combinaram então a fuga de Clara para unir-se ao seu grupo que queria viver o evangelho puro e simples.
A cena não tem nada a perder em criatividade, ousadia e beleza, das melhores cenas de amor dos grandes romances ou filmes. Como poderia uma jovem rica e bela fugir de casa para se unir a um grupo parecido com aos "hippies” de hoje? Pois assim devemos representar o movimento inicial de Francisco. Era um grupo de jovens ricos, vivendo em festas e serenatas que resolveram fazer uma opção de total despojamento e rigorosa pobreza nos passos de Jesus pobre. Não queriam fazer caridade para pobres, mas viver com eles e como eles. E o fizeram num espírito de grande jovialidade, sem sequer criticar a opulenta Igreja dos Papas.

Na noite do dia de 19 de março, Clara, escondida, fugiu de casa e chegou à Porciúncula. Entre luzes bruxoleantes, Francisco e os companheiros a receberam festivamente. E em sinal de sua incorporação ao grupo, Francisco lhe cortou os belos cabelos louros. Em seguida, Clara foi vestida com as roupas dos pobres, não tingidas, mais um saco que um vestido. Depois da alegria e das muitas orações foi levada para dormir no convento das beneditinas a 4 km de Assis. 16 dias após, sua irmã mais nova, Inês, também fugiu e se uniu à irmã. A família Favarone tentou, até com violência, retirar as filhas. Mas Clara se agarrou às toalhas do altar, mostrou a cabeça raspada e impediu que a levassem. O mesmo destemor mostrou quando o Papa Inocêncio III não quis aprovar o voto de pobreza absoluta. Lutou tanto até que o Papa enfim consentisse. Assim nasceu a Ordem das Clarissas.
Seu corpo intacto depois de 800 anos comprova, uma vez mais, que o amor é mais forte que a morte.Leonardo Boff

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

DEUS SEGUNDO SPINOZA

Texto escrito no Século XVII
Albert Einstein, quando perguntado se acreditava em Deus, respondeu: "Acredito no Deus de Spinoza, que se revela por si mesmo na harmonia de tudo o que existe, e não Deus que se interessa pela sorte e pelas ações dos homens".

"Pára de ficar rezando e batendo o peito !
O que eu quero que faças é que saias pelo mundo e desfrutes de tua vida.
Eu quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que
Eu fiz para ti.

Pára de ir a esses templos lúgubres, obscuros e frios
que tu mesmo construíste e que acreditas ser a minha casa.
Minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos rios, nos lagos, nas praias.
Aí é onde Eu vivo e aí expresso meu amor por ti.

Pára de me culpar da tua vida miserável.
Eu nunca te disse que há algo mau em ti ou que eras um pecador, ou que
tua sexualidade fosse algo mau.
O sexo é um presente que Eu te dei e com o qual podes expressar teu amor, teu êxtase, tua alegria.
Assim, não me culpes por tudo o que te fizeram crer.

Pára de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo. Se não podes me ler num amanhecer, numa paisagem,
no olhar de teus amigos, nos olhos de teu filhinho.
Não me encontrarás em nenhum livro!
Confia em mim e deixa de me pedir.
Tu vais me dizer como fazer meu trabalho?

Pára de ter tanto medo de mim.
Eu não te julgo, nem te critico, nem me irrito,
nem te incomodo, nem te castigo.
Eu sou puro amor.

Pára de me pedir perdão. Não há nada a perdoar.
Se Eu te fiz. Eu te enchi de paixões, de limitações, de prazeres,
de sentimentos, de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio.
Como posso te culpar se respondes a algo que eu pus em ti?
Como posso te castigar por seres como és, se Eu sou quem te fez?
Crês que eu poderia criar um lugar para queimar a todos meus filhos
que não se comportem bem, pelo resto da eternidade?
Que tipo de Deus pode fazer isso?

Esquece qualquer tipo de mandamento, qualquer tipo de lei;
essas são artimanhas para te manipular, para te controlar,
que só geram culpa em ti.
Respeita teu próximo e não lhe faças o que não queiras para ti.
A única coisa que te peço é que prestes atenção à tua vida,
que teu estado de alerta seja teu guia.

Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho,
nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso.
Esta vida é o único que há aqui e agora, e o único que precisas.
Eu te fiz absolutamente livre. Não há prêmios nem castigos.
Não há pecados nem virtudes. Ninguém leva um placar.
Ninguém leva um registro.

Tu és absolutamente livre para fazer da tua vida um céu ou um inferno.
Não te poderia dizer se há algo depois desta vida, mas posso te dar um conselho.
Vive como se não o houvesse.
Como se esta fosse tua única oportunidade de aproveitar, de amar, de existir.
Assim, se não há nada, terás aproveitado da oportunidade que te dei.
E se houver, tem certeza que Eu não vou te perguntar se foste comportado ou não.
Eu vou te perguntar se tu gostaste, se te divertiste.
Do que mais gostaste? O que aprendeste?

Pára de crer em mim - crer é supor, adivinhar, imaginar.

Eu não quero que acredites em mim.
Quero que me sintas em ti.
Quero que me sintas em ti quando beijas tua amada,
quando agasalhas tua filhinha,
quando acaricias teu cachorro,
quando tomas banho no mar.

Pára de louvar-me!
Que tipo de Deus ególatra tu acreditas que Eu seja?
Me aborrece que me louvem.
Me cansa que agradeçam.
Tu te sentes grato? Demonstra-o cuidando de ti,
de tua saúde, de tuas relações, do mundo.

Te sentes olhado, surpreendido?. Expressa tua alegria!
Esse é o jeito de me louvar.

Pára de complicar as coisas e de repetir como papagaio
o que te ensinaram sobre mim.
A única certeza é que tu estás aqui, que estás vivo,
e que este mundo está cheio de maravilhas.
Para que precisas de mais milagres? Para que tantas explicações?
Não me procures fora! Não me acharás.

Procura-me dentro. aí é que estou, batendo em ti."

Sábias palavras são de Baruch Spinoza - nascido em 1632 em Amsterdã, falecido em Haia em 21 de fevereiro de 1677. Espinoza foi um dos grandes racionalistas do século XVII dentro da chamada Filosofia Moderna, juntamente com René Descartes e Gottfried Leibniz. Era de família judaica fugida de Portugal e é considerado o fundador do criticismo bíblico moderno.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011












A paz para todos nasce da justiça de cada um.

A festa da noite de ontem se prolongou madrugada adentro e na manhã de hoje tudo está mais silencioso. Aproveite-mos, pois, para compreender o sentido do Natal colocando entre parênteses os apelos e ofertas do mercado natalício e pedindo ajuda aos primeiros cristãos. Por trás do hino do primeiro capítulo do Evangelho segundo João e dos primeiros versículos da carta aos Hebreus está uma experiência concreta e uma profissão de fé amadurecida numa busca longa e intensa, em meio a conflitos e perseguições. O coração desta experiência proclamada como Boa Notícia é a manifestação da glória de Deus na vulnerabilidade da carne humana e, nela, a oferta de paz duradoura e de libertação graciosa e universal de Deus em favor de todos os seres humanos, indistintamente.
“E a Palavra se dez carne e veio habitar entre nós.”
Tudo parte da gruta de Belém e nela se sustenta. Mas não menos viva é a memória da vida inteira de Jesus, seu anúncio e sua ação polêmica e libertadora, sua condenação e morte na cruz dos proscritos. João tem isso presente quando nos fala da Palavra que estava junto de Deus e que era Deus, que é a luz que brilha e vence as trevas, que se faz carne e vem habitar entre nós, que torna visível o Deus invisível. E o mesmo ocorre com o autor da carta aos Hebreus, quando afirma que Jesus exprime o ser de Deus.
Recordemos a poética narração de Lucas, proclamada na celebração da vigília da noite passada. Forçados pelo Imperador Augusto, Maria e José tiveram que ir a Belém e, completado o tempo da gravidez e sem terem encontrado hospedagem, se abrigam numa estrebaria, onde Jesus é dado à luz. Proscritos pastores sabem do ocorrido e acorrem ao estábulo, onde encontram o casal e um recém-nascido envolto em panos e acomodado numa cocheira. Seria propriamente esta a glória de Deus?
“E a Luz brilha nas trevas, e as trevas não conseguiram dominá-la.”
Perguntemos aos irmãos e irmãs da primeira hora pelo sentido deste acontecimento histórico. Na carta aos Hebreus, a comunidade cristã, amadurecida às custas da perseguição e da perseverança, dá seu testemunho afirmando que através de Jesus, nascido na pobreza e perseguido pelos poderes políticos e religiosos, Deus nos falou de modo definitivo. Ele é a expressão da glória de Deus e o próprio dinamismo que sustenta as buscas de paz e de comunhão de todo o universo.
A comunidade joanina vai na mesma linha da comunicação, dizendo que na vida de Jesus é pronunciada definitivamente a Palavra divina: é uma Palavra que gera dinamismos de Vida que ilumina a humanidade; que vence as forças que a ela se opõem; que transforma os/as escravos/as em filhos/as. Nesta Palavra feita carne humana e hóspede do mundo, vemos a glória de Deus, o qual estabelece conosco uma aliança baseada na gratuidade e na verdade.
“A quantos a acolheram, deu-lhes poder de se tornarem filhos/as de Deus.”
As imagens e conceitos são vários e complementares. Prestemos atenção a três delas: Palavra, Vida e Graça. Enquanto Palavra, Jesus é a exteriorização da interioridade de Deus, e esse mistério interior não é uma lei, uma advertência ou uma doutrina, mas uma boa notícia que produz felicidade. A Palavra de Deus assume a carne humana e a vida histórica e corporal de Jesus como tenda na qual os homens e mulheres podem encontrar, tocar e acolher o próprio mistério de Deus.
O mesmo Jesus, filho de Maria e de José, que nasceu em Belém e viveu como carpinteiro em Nazaré, que reuniu discípulos/as e foi por eles abandonado em Jerusalém, é portador da Vida plena e eterna, do bem viver desejado por todas as criaturas. Nele o bem viver ou a Vida é revelada e doada como comunhão profunda com o mistério de Deus, comunhão solidária com todas os pobres e as vítimas e comunhão graciosa com todas as criaturas.
Na pessoa e no caminho histórico de Jesus de Nazaré, vislumbramos também a Graça de Deus, graça manifestada e encarnada. Nele recebemos a boa notícia de que Deus não é um cobrador de dívidas ou um juiz frio e calculista, mas um irmão e um hóspede que se rege pela gratuidade e pelo dom. A lei e a cobrança implacáveis vêm das velhas instituições, mas a Graça e a Verdade nós as recebemos por Jesus Cristo. Nele, todos/as recebemos graças e mais graças... Ele mesmo é a graça e a gratuidade de Deus!
“Nós vimos a sua glória...”
Tanto a comunidade de João como a da carta aos Hebreus fala de Jesus de Nazaré como glória. “Ele é o explendor da glória do Pai, a expressão do seu ser”, diz a carta. “Nós vimos a sua (da Palavra feita carne) glória, glória como do Filho único da parte do Pai”, diz João. O que esta expressão pode comunicar sobre o Filho de Deus que se revela no presépio de Belém, na carpintaria da Galiléia, na família de Nazaré e na via-crucis de Jerusalém?
Em hebraico, glória (kabôd: peso, valor, brilho) é uma palavra que exprime a importância e o valor interior de uma pessoa, que se revela nas ações e requer o respeito dos outros. Ver a glória de Deus significa testemunhar sua ação salvífica e libertadora, reconhecer sua santidade nos acontecimentos históricos. A metáfora da luz é frequentemente usada para materializar a glória de Deus, como aparece no relato do nascimento de Jesus (cf. Lc 2,9).
A tradição cristã afirma com ousadia que a glória de Deus se manifesta de modo incomparável e insuperável na crucifixão de Jesus, na sua fidelidade radical e amorosa à humanidade oprimida. Sendo a cruz o desfecho de uma inteira vida de amor, podemos dizer que na humanidade de Jesus vemos a glória de Deus. E os discípulos/as de Jesus são glorificados/as na medida em que participarm do dinamismo do seu amor ou paixão pelo mundo. Eis nosso brilho, nosso peso, nosso valor.
“Todos os confins da terra puderam ver a salvação.”
A liturgia natalina também nos ensina que universalidade e libertação são duas características essenciais do evento da encarnação do Filho de Deus. A festa do Natal de Jesus não pode ser reduzida a um evento voltado unicamente aos cristãos ou católicos, e menos ainda a um sentimento ou iluminação interior, bem ao gosto do individualismo e do misticismo pós-modernos. E não tem nada a ver também com as luzes coloridas e ofertas de consumo que abundam no mercado globalizado.
O profeta Isaías e o Salmo de meditação sublinham claramente tanto o caráter universal como a marca libertadora do nascimento de Jesus. Somos convidados a cantar porque Deus faz maravilhas, arregaça as manhas do seu braço santo e põe em movimento sua salvação. E são todos os confins da terra que vêem e experimentam esta salvação, e a terra inteira que é convocada a gritar, exultar e cantar hinos agradecidos. E João diz que todos quantos acolhem a Luz, podem se tornar filhos e filhas de Deus.
“Que beleza, pelas montanhas, os passos de quem traz boas notícias...”
Mas tudo isso não pode ser apenas sermão monótono ou doutrina abstrata. A fé que não é experiência vital se torna ideologia escravizadora. Partindo de uma libertação vivida como esperança e experiência de graça, o profeta Isaías se delicia contemplando os passos de quem corre sobre as montanhas anunciando boas notícias a um povo dominado e desolado. Ele vislumbra os guardas cantando em coral e um povo em ruínas explodindo de alegria diante do mensageiro que traz um edito de paz.
Pois o Natal é também a boa e definitiva notícia de que Deus deseja e promove uma paz duradoura, para todos e em todos os lugares. Bento XVI nos lembra oportunamente que a paz é dom a ser recebido e realidade a ser construída mediante a compaixão e a solidariedade. “A paz para todos nasce da justiça de cada um, e ninguém pode subtrair-se a este compromisso essencial de promover a justiça segundo as respectivas competências e responsabilidade”, diz o Papa na sua mensagem para o Ano Novo.
“Vamos explodir de alegria...”
Diante da tua pequenez gloriosa, Deus Menino, ajoelhamo-nos eternamente agradecidos/as. É desta tua glória que todos necessitamos. É este brilho que todos/as buscamos de forma inconsciente e quase desesperada. Tu nos ensinas que é armando a tenda dos nossos sonhos e palavras em meio à humanidade peregrina que alcançamos a liberdade e a plena realização. Obrigado por esta lição pronunciada na nossa carne. Queremos ser filhos/as desta luz. Assim seja! Amém!
Pe. Itacir Brassiani msf

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

"O Rei do Universo é o Também o Irmão dos necessitados."

FESTA DE CRISTO REI


O ano litúrgico católico termina com a festa de Cristo, Rei do Universo. Desde o final do século XIX algumas comunidades católicas vinham propondo a celebração de Cristo Rei para propagar a dignidade de Jesus Cristo, afirmar os direitos da Igreja frente à sociedade liberal e destacar a importância da doutrina cristã na formulação das leis civis. Essa festa acabou sendo instituída oficialmente em 1955, pelo Papa Pio XII. Hoje temos consciência de que é preciso evitar toda forma de triunfalismo e, ao mesmo tempo, destacar o mistério de Jesus Cristo que, com sua paixão pelo povo e sua vida doada aos marginalizados, venceu a opressão e a morte e inaugurou um Novo Tempo, regido pela paz, pela solidariedade e pela partilha. O que predomina é a utopia do bom rei que, como o bom pastor, vela sobre seu povo e o governa na justiça e na paz.


“Quando o filho do homem vier na sua glória...”
Para falar de Jesus e expressar o que ele significa sempre recorremos a imagens e comparações vindas da nossa experiência e da nossa cultura. Desde o tempo dos primeiros discípulos a comunidade cristã usou títulos e nomes correntes para expressar o mistério inesgotável da pessoa e do evento Jesus Cristo, consciente de que nenhum deles conseguia expressar com exatidão seu significado e sua relevância. Estes títulos e nomes às vezes mais escondem do que revelam a novidade de Jesus Cristo.
O título de Messias ajudava a sublinhar seu caráter de líder ungido e enviado por Deus para realizar sua obra libertadora. Chamando-o Mestre as comunidades destacavam sua a relação pedagógica com os/as seguidores/as. A imagem de Pastor serviu para ressaltar a proximidade, o conhecimento, o cuidado e a postura frente ao povo. Ao atribuir-lhe o título de Filho de Deus os cristãos afirmavam a convergência de sua ação com a ação de Deus e contestavam essse mesmo reconhecimento aos reis e imperadores.
Mas podemos afirmar com relativa segurança que Jesus evitou a maioria dos títulos que lhe davam, e preferiu autoapresentar-se como Filho do Homem, ou seja, como fundamentalmente humano e portador de humanidade. Parece que ele queria evitar o risco de entenderem-no de modo muito espiritualizado ou politizado. E preferiu falar de si mesmo em termos mais neutros, mostrando o que era e o que queria mais através da prática que de discursos, títulos e nomes.

“Julgarei entre ovelha e outra, entre carneiros e bodes...”
O trecho do Evangelho proclamado na festa de Cristo Rei é um dos ‘discursos escatológicos’ de Jesus. Esse gênero de anúncio se presta para falar não propriamente daquilo que deve acontecer no fim do mundo, mas para apresentar aquilo que realmente vale enquanto dura nossa vida no mundo. Esse discurso de Jesus nos leva imaginariamente ao fim dos tempos para destacar o que realmente tem valor no percurso da história.
Neste final imaginário da história, Mateus nos apresenta Jesus através das metáforas do rei e do juiz. Quando o evangelista fala que o Filho do Homem virá ‘na sua glória’ e se sentará em se ‘trono glorioso’ está comparando Jesus com um rei. “Então o rei dirá aos que estão à sua direita...” E a expressão ‘Senhor’ tem essencialmente o mesmo sentido, pois esse era o apelativo com que o povo se dirigia aos reis, imperadores e chefes locais.
Esta parábola também aproxima Jesus da imagem do juiz, e isso é compreensível numa cultura que atribuía ao rei as funções legislativas, executivas e judiciárias. “Todos os povos serão reunidos diante dele e ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos.” A ação de julgar consiste em discernir o verdadeiro valor das ações concretas das pessoas, as quais são separadas em dois grupos, a partir daquilo que fizem e não dos títulos honoríficos ou das meras intenções.

“Eis que eu mesmo buscarei minhas ovelhas e tomarei conta delas...”
Na análise da parábola em questão não podemos esquecer de algo que é mais que um detalhe: mesmo no papel de juiz, Jesus age como pastor. Os evangelhos nos mostram que Jesus decidiu sentar-se definitivamente à mesa como conviva dos pecadores, e não como juiz na mesa do tribunal. Sua vida inteira comprova que ele foi ao encontro e assumiu a causa dos marginalizados. Ele não os esperou sentado na cadeira pretensamente neutra dos juízes.
A bela imagem usada pelo profeta Ezequiel nos ajuda nessa perspectiva. Ele nos diz que Deus promete agir em primeira pessoa para conduzir seu rebanho às pastagens e ao repouso, cuidando da ovelha machucada e fortalecendo a ovelha enfraquecida. Deus cuida do seu povo e garante-lhe vida e segurança. Mas, fazendo isso, não deixa de agir lucidamente como juiz: “Vou julgar entre ovelha e ovelha, entre carneiros e bodes...” Sempre há lobos que se fazem passar por ovelhas...
Ampliando o nosso olhar para além dos textos de hoje, é importante lembrar que, além de se apresentar como pastor, juiz e filho do homem, Jesus se identifica com o servo. João Batista o anuncia como ‘cordeiro de Deus’, como aquele que dá a vida em resgate por muitos. E no confronto com as autoridades do seu tempo e com as ambições de poder dos próprios discípulos, o próprio Jesus declara: “Eu estou no meio de vocês como quem está servindo” (Lc 22,27).

“Todas as vezes que fizestes isso a um destes mais pequenos, que são meus irmãos....”
O mais importante, porém, está um pouco escondido na instigante parábola que ouvimos. Diante da pergunta sobre o momento e a forma concreta de servir a Jesus, ele responde: “Todas as vezes que vocês fizeram isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizeram...” Jesus é filho da humanidade, irmão dos homens e mulheres, mais concretamente: irmão daqueles que passam fome e sede, dos migrantes e doentes, dos pobres e presidiários.
Mais que como pastor ou juiz, Jesus se revela como irmão. Ele não se envergonha de ser nosso irmão e nos tratar como tal (cf. Hb 2,11). É desse modo – fazendo-se próximo o identificando-se solidariamente com os últimos – que Jesus nos revela o que realmente tem valor e pode nos salvar. Interrogando-nos sobre nossa atitude diante dos sofredores e marginalizados, ele nos ajuda discernir se estamos entre os ‘benditos do Pai’ ou com os malfeitores, com ele ou contra ele.


“Senhor, quando foi que não te servimos?...”
Aprecio muito uma proposta que Dom Hélder Câmara apresentou durante o Concílio Vaticano II, sugerindo que se criasse a festa litúrgica de Cristo Servo, para corrigir os excessos da festa de Cristo Rei e recordar esse aspecto essencial da vida de Jesus de Nazaré. São Paulo lembra que Jesus reina destruindo os poderes, rebaixando os poderosos e destruindo os mecanismos de morte. Ele reina fazendo-se servo de todos e doando sua vida para que o mundo viva.
E ele reina servindo através santos como os mártires das Missões (+19.11.1628), de lutadores como Zumbi (+20.11.1695), Marçal de Souza (+25.11.1983), e de milhões de leigos e leigas, cujo dia hoje celebramos. Como cristãos, nosso desejo é amar e servir Nosso Senhor Jesus Cristo, e o fazemos amando e servindo as pessoas necessitadas que nos redeiam. É desde a necessidade dessas pessoas concretas que ele reina e exerce seu senhorio sobre nossos interesses, ambições, medos e egoísmos.
Nem a beleza lírica do Salmo 22/23 destoa deste horizonte hermenêutico. São os pobres, aos quais falta tudo, que cantam com ousadia: “O Senhor é o meu pastor, nada me falta.” São os cansados que recobram forças diante da sua presença. São as pessoas socialmente desprotegidas que se sentem seguras à simples visão do seu cajado. São os grupos sociais excluídos e perseguidos que se descobrem convidados a uma mesa farta e acompanhados diariamente pela graça e pela felicidade.


“Vinde, benditos de meu Pai!...”
Deus pai e mãe, pastor do rebanho e protetor dos pequenos, neste dia em que celebramos meio sem jeito teu Filho como Rei do Universo, te pedimos: purifica nossa liturgia e nossa mente e a das autoridades da Igreja de todo desejo de honra e de poder; confirma-nos no lugar do servo, o lugar que teu Filho ocupou e que não lhe será tirado; fortalece os leigos e leigas que, de mil e uma maneiras, tornam efetivo o reinado de Jesus Cristo e transformam o mundo; e concede a todos/as nós a graça de te reconhecer, amar e servir atenta e delicadamente nos nossos irmãos e irmãs. Amém! Assim seja!
Pe. Itacir Brassiani msf